segunda-feira, 31 de outubro de 2016

BOM DIA !!!

APESAR DE CRIVELLA

APESAR DE CONTINUADOS GOVERNOS CARIOCAS, QUE SIMPLESMENTE, DETONAM COM A HISTÓRIA DE UMA CIDADE TÃO IMPORTANTE.

APESAR DE UMA POPULÇÃO QUE PARECE GOSTAR DE   E R R  A R......

APESAR DE. 

NÃO SENDO PESSIMISTA

PORQUÊ NÃO ESCREVEMOS MAIS ?


POR CONTA DAS NÃO REAÇÕES AOS TEXTOS DO  CATÁLOGO DE " OCORPO ", ALGUMAS CONSIDERAÇÕES :

POR QUÊ NÃO ESCREVEMOS MAIS ?

Será porquê temos preguiça, nos desacostumamos pós-redes sociais, às abreviaturas de tudo, inclusive o desenvolvimento de raciocínios mais extensos e demorados ? 
Ou não, é um sintoma apenas da nossa pressa, de nosso ritmo intenso de trabalho, e pouco tempo para relflexão ?

A adolescência e infância em risco social afeta a vida de todos, e muitas áreas afins discutem e trabalham com o tema, não é ?
Ocorre-me que possa ser, pelo sempre " impacto " que o tema provoca, mas sobretudo as imagens, fortes demais para maioria das pessoas, mesmo as que trabalham com esses assuntos. Mesmo as que lêem jornais, diariamente. As que assistem aos telejornais, consomem revistas semanais, etc.
O tema é forte, incômodo, sempre. Sempre.

Talvez por isso, as soluções cheguem lentamente, ou simplesmente não chegam.
A sensação é de desinteresse geral, apatia, pelo menos a minha, o é.

Lamento.

Lamento que estejamos tão silenciosos, mudos, até.
Entristece-me o fato de colegas não participarem, proporem, criticarem.

MAS CONTINUAREMOS, RESILIENTES QUE SOMOS, INSISTENTES.

Uma ótima semana a todos.

Isabella R. Thomé

A PROPOSITO...


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Reginal e Carlinhos, agentes educacionais em exercício, oriundos de uma primeira concepçaão da referida função, concurso de 1994, logo após a criação do DEGASE


TEXTOS DOS COLABORADORES 

PROJETO “OCORPO”  -  2001 / 2016

Versão catálogo - a primeira a sair.
 



             A flor da marca: escarificação e busca identitária no adolescente



                                                               Palmyr Virginio Jr.

 – Pédopsiquiatra, formado pela universidade Paris V; mestrado em psicologia pela universidade Paris VII; terapeuta familiar; exerce atividades profissionais na França (Thonon-le-bains) e na Suíça (Genebra).



Cada um traz consigo suas marcas. Visíveis ou invisíveis, exuberantes ou discretas, escolhidas ou impostas, queridas ou repudiadas, nenhuma delas desaparece definitivamente, da flor ou das profundezas da pele.

Essas marcas são quase sempre realizadas voluntariamente, intimamente. Além da aparência, tem-se sempre algo a dizer sobre elas, histórias que as antecedem e que as acompanham, relações e contextos que as valorizam e fidelizam.

Na verdade, essas marcas são o testemunho encarnado da identidade, da história e dos vínculos sociais do sujeito. Sobretudo, mudar a superfície do corpo, essa instância visível, essa fronteira do dentro e do fora, do eu e do outro, significa se inscrever dentro de uma outra relação com o mundo, significa simbolicamente "mudar de vida".

Fixadas de forma indelével, as marcas existem enquanto assinatura, uma rubrica definitiva e sempre atualizada, colocada em evidência através do olhar do outro.

Tatuadas, escarificadas, laceradas, queimadas, essas marcas representam uma forma de mapeamento da trajetória de vida do sujeito, de seus laços afetivos e de sua "appartenance
 – A tradução, fica entre "pertencimento" ou "pertença" esta última palavra é definida no dicionário do Houaiss como: "domínio, qualquer coisa que, por destinação de lei ou destinação natural, encontra-se ligada ao uso de outra ou como acessório, apêndice ou complemento; privilégio, atribuição, prerrogativa.""

No caso das escarificações do adolescente, vários são os fatores em jogo mas numa grande proporção de casos, observamos a presença de angústias existencias e referências identitárias de grande impacto psicossocial que, muitas vezes, não conseguem ser elaboradas de forma satisfatória.

Certos estudos voltados às representações subjetivas e às repercussões sociais de tais gestos (Pommereau – 1997) mostram que a ferida da escarificação vem se sobrepor e até mesmo tomar o lugar de uma outra, muito mais profunda e ameaçadora.

Contudo, é importante lembrar que nem todo gesto de marcação do corpo de um adolescente se inscreve, necessariamente, no campo da psicopatologia. No entanto, na clínica pedopsiquiátrica, devemos sempre verificar a possibilidade de estarmos diante de sinais reveladores de um sofrimento psíquico grave, não identificado pelo adolescente.

A fase da adolescência é uma fase de grandes modificações e incertezas. Podemos citar como principais, tanto as transformações do corpo, quanto as modificações das relações com os outros do mesmo sexo – e sobretudo do sexo oposto -, dentro ou fora da família, adultos ou jovens, grupos ou instituições.

Marion HAZA (2002) considera que, situada entre o psíquico e o fisiológico, a marcação do corpo (piercing ou tatuagem) em adolescentes escolarizados na França entre 15 e 25 anos, fora de todo processo de marginalização social, é antes de tudo um sinal estruturante e facilitador servindo como base psíquica para a construção da identidade.

Nessa população a noção de "dor" engendrada pela gravação ou pela perfuração da pele, emerge com uma força particular, não como um fator estimulante para a realização do gesto, mas como uma experiência iniciática de ultrapassar seus próprios medos e limites.

Suportar essa dor significaria, "provar algo para si mesmo e também para outros".

Essa pesquisa mostrou que se todos os que marcam seus corpos não estão, em princípio, buscando integrar ou pertencer diretamente a um grupo, muitos reconhecem que esses sinais podem se tornar uma "marca de reconhecimento", servindo a se "referenciar", a se "aproximar" e sobretudo a se "identificar" dentro de um grupo.

A dimensão estética ocupa igualmente um lugar importante no projeto de marcação dos corpos, na medida em que é frequentemente buscado um "embelezamento", uma "valorização" e até mesmo uma dimensão de "obra de arte única" sobre a pele.

Um "exibicionismo discreto" se organiza em torno do jogo de mostrar e não mostrar o desenho ou jóia.

O que fica claro na pesquisa é que, analisando mais profundamente o perfil dos jovens, o principal fator motivacional, além da busca e da afirmação da sua identidade é a originalidade e a tentativa de "sair do ordinário".

Já no caso das auto-escarificações, isto é, arranhões ou pequenas incisões provocadas voluntária e secretamente pelo adolescente, o que podemos constatar é a presença importante de angústia e outros sintomas relacionados ao humor e a auto-estima.



Através desse gesto e da ferida física produzida, o sujeito visa, paradoxalmente, aliviar uma outra ferida, esta insuportável, decorrente da angústia podendo inclusive conduzi-lo a cometer atos de suicídio.

"Couper court à la détresse", em português, "cortar a aflição pela raiz", é a expressão utilizada pelo antropólogo francês David Le Breton (2009) para falar dos sofrimentos "controlados" que certos jovens inflingem aos seus envelopes corporais diante dessa angústia, na medida em que ela é difusa e sem limites.

Nesses casos de escarificação, no momento da passagem ao ato, o corpo se transforma num testemunho vivo, sobrevivente de uma forma dramática de morte iminente contra a qual luta o adolescente.

A presença e até mesmo a contemplação das feridas funcionam como âncoras que evitam que o sujeito parta à deriva, terminando por aliviá-lo, mesmo que momentaneamente.

Em seguida, as cicatrizes tornam-se traços da memória existencial do adolescente, juntamente com o sentido que ele atribui.

Tanto no caso das tatuagens quanto no caso das escarificações, esse sujeito pode ficar indefinidamente subjulgado, seja por uma "Marca de valor" seja por um "Sinal infamante", estigma designativo que pode conduzí-lo à diferentes situações, das mais acolhedoras às mais excludentes.











Bibliografia :



Marion HAZA, "A la fleur de peau ou le marquage du corps à l'adolescence", Recherches & éducations, n°2/ 3e trimestre 2002.

David LE BRETON, "Signes d'identité. Tatouages, piercings et outres marques corporelles", Paris Métaillé, 2002.

Pommereau, X., "Quand l'adolescent va mal", JC Lattès, 1997.

Pagès-Delon, M, Le corps et ses apparences. L'envers du look. Editions l'Harmattan, 1989.





Para mim, tão importante quanto o fenômeno “marcas” a ser discutido aqui  é o contexto em que se insere o mesmo.

     Não lembro do momento exato em que Isabella me chamou para compartilhar com ela o projeto OCORPO, mas sim, que era mais uma tentativa de não ficarmos imobilizadas diante das dificuldades encontradas em nossa práxis.

     Entramos por concurso em 1994 e já estávamos em 2001.

     Convivíamos com toda a sorte de limitações e questões : desde instalações inadequadas a falta de um regimento interno que regulasse as relações, falta de projeto institucional, atos de negligência, violência, despreparo, sobejamente conhecidos e várias vezes expostos na mídia. Nosso lugar de trabalho contrariava tudo que havíamos estudado para abordar a adolescência e muito mais a adolescência infratora de Foucault a Paulo Freire. 
   
     Que tal, então, utilizarmos a arte como ferramenta para nos aproximarmos do sintoma “marcas”? Que tal buscarmos o olhar externo para compartilhar esta experiência?

     Daí OCORPO ser estruturado como um evento em que haveria: uma peça teatral , dando-nos a oportunidade de implicá-los no processo; o registro e exposição fotográfica das marcas, tendo em vista a discussão das facções, uma mesa em que convidados nos trariam visões diferenciadas e mais distanciadas do problema. Muitas foram às contribuições que recebemos, algumas delas serão aqui apresentadas.

     O que leva um jovem a sofrer a dor do objeto perfuro-cortante para colocar símbolos de comandos? Ou suásticas? Ou queimar-se fazendo surf ferroviário? Ou tatuar-se com um “anjinho” armado?

     Sabemos que a adolescência é o momento da vida em que abundam as incertezas. As transformações físicas, fisiológicas, psíquicas trazem desconforto e insegurança. Esses sentimentos, ultrapassados com certa dificuldade pela maioria, vai encontrar terreno fértil naqueles que por razões várias sucumbem ao despreparo da família, escola, sociedade. Tornam-se a marca do fracasso de muitos. A marca como sintoma da não inscrição no desejo do Outro.  À rebeldia normal da idade, que permite a uma geração ultrapassar a outra rumo à maturidade, levando a contestação de valores, transforma-se em revolta surda contra qualquer figura de poder. Aprenderam e apreenderam que não existem heróis e bandidos. Estar em sociedade é um fenômeno complexo. No lado daqueles que são tidos como “heróis” encontramos o político e o policial corruptos, a sociedade é injusta e penaliza os mais pobres. As escolas não têm projeto para esses rebeldes, que perturbam a ordem e atrapalham o bom andamento e o cumprimento da norma estabelecida. São expulsos. Muitos analfabetos funcionais. Tornam-se, com frequência, usuários de drogas. Drogas que muitas vezes são utilizadas como medicamento para abrandar diferentes sintomas: ansiedade, depressão, euforia fruto de transtornos mentais não diagnosticadas que antecedem e agravam seus quadros. O ato infracional se inscreve nessa dinâmica de dor e sofrimento.

     Empurrados pelo que encontram na vida, aliam-se àqueles que para ele são figuras míticas e ostentam os valores reconhecidos por esta mesma sociedade: carros, dinheiro, belas mulheres. Querem o que todos querem... Afinal não é a marca da sociedade atual a acumulação de dinheiro e bens como uma finalidade em si?

     No corpo a fidelidade aos que o acolheram, deram sentido a sua vida.

     Cedo devolvem o que receberam: descaso pelo outro, por seus bens, por suas vidas.

     Sabemos que a demonização das drogas e dos drogados, compreensível pela violência do tráfico, agrava a situação destes adolescentes.

     O adolescente autor de ato infracional é visto como não-eu, não existe empatia, nem da sociedade, nem de alguns de seus cuidadores. Aos erros anteriores somam-se as das instituições responsáveis por sua cautela, pela determinação de seu destino. E a reincidência é a norma.

     No jogo de empurra-empurra que se estabelece, ninguém tem culpa pelo insucesso. As relações no sistema, como relações de poder em que na base da pirâmide encontra-se o educando, alvo de toda a desilusão da sociedade, repetem a lógica perversa do descompromisso e do descaso. É aquela história do um que desconta no outro e assim sucessivamente...

     Quem grita, quem bate, quem deixa de atender com urbanidade, por que o faz?

     Todos estão submetidos à mesma penúria.

     O que pode romper essas barreiras?

     A crença de que é possível uma recuperação?

     Uma polidez maior que seja traduzida através de exemplos?

     Regras claras, simples, compartilhadas num regimento interno?

     A certeza de sanções para quem descumprir as regras?

     A participação dos familiares e amigos?

     A participação das instituições que deveriam tomar conta cumprindo o seu papel constitucional?

     Muitas são as indagações e longe estamos das respostas que nos satisfaçam. A “sideração” que se expressa na perplexidade e na impotência pode ser sentida em alguns lugares por onde o projeto passou.

     O projeto de lei, o SINASE (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), aprovada pelo CONANDA (Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente) que aborda de forma mais abragente a questão da adolescência autora de ato infracional talvez aponte uma luz no final do túnel.
O corpo ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é

um espaço que possui desdobramentos: a pele, as

ondas sonoras, a aura da perspiração. Esse corpo físico,

material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é

esta coisa que os outros veem, sondam em seu desejo.

Ele desgasta-se com o tempo. É um objeto de ciência. Os

cientistas o manuseiam e o dissecam: medem sua massa,

sua densidade, seu volume, sua temperatura: analisam

seu movimento; transformam-no. Mas o corpo dos

anatomistas ou dos fisiologistas é radicalmente diferente

do corpo do prazer e da dor.

Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo.

Essa presença constante conosco mesmos dá base a

uma das interrogações fundamentais dos ideólogos. O

sujeito- o eu existe- existe somente encarnado: nenhuma

distância pode se constituir entre nós e nosso corpo.

Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no- ou

pelo- sono, fadiga, na possessão, no êxtase, na morte.

Ele será futuramente um cadáver. Por tudo isso, a

tradição filosófica antiga o entende como prisão da alma,

como um túmulo. Falar da história do corpo equivale

a olhar tudo o que cerca o indivíduo e o contextualiza.

Estamos, definitivamente, diante de um tema de infinitas

proporções. Na história do corpo revela-se o universo

cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da

sociedade. A história do corpo é a história da própria vida

humana.

História do Corpo.

Direção Alain Corbin, Jean – Jacques Courtine, Georges

Vigarello.

Editora Vozes, 2009


.

SOLANGE RODRIGUES, PSIQUIATRA POR ANOS, DA MESMA INSTITUIÇÃO DO DEGASE, ONDE O PROJETO “OCORPO” NASCEU E DESENVOLVEU-SE.

ATUALMENTE, SOLANGE ESTÁ DISTANTE DA INSTITUIÇÃO, POIS APOSENTOU-SE. EU PERMANEÇO NELA, MAS NÃO MAIS EM UNIDADES DE INTERNAÇÃO. PASSEI PELA UNIDADE QUE É A PORTA DE ENTRADA NO SISTEMA, EM SEGUIDA POR ANOS, TRABALHEI NO CENTRO PROFISSIONALIZANTE, E ATUALMENTE ESTOU EM UMA UNIDADE DE SEMI-LIBERDADE.




FICA, QUERIDOS, FALTANDO COMPLEMENTAR COM O TEXTO DE CARLOS EDUARDO, POIS DESEJA FAZER MODIFICAÇÕES E /OU ACRÉSCIMOS.


EM BREVE, OBRIGADA





certo, si, finalmente, ufa !!!!


TEXTOS DE COLABORADORES DO PROJETO "OCORPO', AO LONGO DE ANOS

O corpo ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é

um espaço que possui desdobramentos: a pele, as

ondas sonoras, a aura da perspiração. Esse corpo físico,

material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é

esta coisa que os outros veem, sondam em seu desejo.

Ele desgasta-se com o tempo. É um objeto de ciência. Os

cientistas o manuseiam e o dissecam: medem sua massa,

sua densidade, seu volume, sua temperatura: analisam

seu movimento; transformam-no. Mas o corpo dos

anatomistas ou dos fisiologistas é radicalmente diferente

do corpo do prazer e da dor.

Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo.

Essa presença constante conosco mesmos dá base a

uma das interrogações fundamentais dos ideólogos. O

sujeito- o eu existe- existe somente encarnado: nenhuma

distância pode se constituir entre nós e nosso corpo.

Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no- ou

pelo- sono, fadiga, na possessão, no êxtase, na morte.

Ele será futuramente um cadáver. Por tudo isso, a

tradição filosófica antiga o entende como prisão da alma,

como um túmulo. Falar da história do corpo equivale

a olhar tudo o que cerca o indivíduo e o contextualiza.

Estamos, definitivamente, diante de um tema de infinita

proporções. Na história do corpo revela-se o universo

cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da

sociedade. A história do corpo é a história da própria vida

humana.

História do Corpo.

Direção Alain Corbin, Jean – Jacques Courtine, Georges

Vigarello.

Editora Vozes, 2009.
 
TEXTOS DOS COLABORADORES 

PROJETO “OCORPO”  -  2001 / 2016

Versão catálogo - a primeira a sair.
 



             A flor da marca: escarificação e busca identitária no adolescente



                                                               Palmyr Virginio Jr.

 – Pédopsiquiatra, formado pela universidade Paris V; mestrado em psicologia pela universidade Paris VII; terapeuta familiar; exerce atividades profissionais na França (Thonon-le-bains) e na Suíça (Genebra).



Cada um traz consigo suas marcas. Visíveis ou invisíveis, exuberantes ou discretas, escolhidas ou impostas, queridas ou repudiadas, nenhuma delas desaparece definitivamente, da flor ou das profundezas da pele.

Essas marcas são quase sempre realizadas voluntariamente, intimamente. Além da aparência, tem-se sempre algo a dizer sobre elas, histórias que as antecedem e que as acompanham, relações e contextos que as valorizam e fidelizam.

Na verdade, essas marcas são o testemunho encarnado da identidade, da história e dos vínculos sociais do sujeito. Sobretudo, mudar a superfície do corpo, essa instância visível, essa fronteira do dentro e do fora, do eu e do outro, significa se inscrever dentro de uma outra relação com o mundo, significa simbolicamente "mudar de vida".

Fixadas de forma indelével, as marcas existem enquanto assinatura, uma rubrica definitiva e sempre atualizada, colocada em evidência através do olhar do outro.

Tatuadas, escarificadas, laceradas, queimadas, essas marcas representam uma forma de mapeamento da trajetória de vida do sujeito, de seus laços afetivos e de sua "appartenance
 – A tradução, fica entre "pertencimento" ou "pertença" esta última palavra é definida no dicionário do Houaiss como: "domínio, qualquer coisa que, por destinação de lei ou destinação natural, encontra-se ligada ao uso de outra ou como acessório, apêndice ou complemento; privilégio, atribuição, prerrogativa.""

No caso das escarificações do adolescente, vários são os fatores em jogo mas numa grande proporção de casos, observamos a presença de angústias existencias e referências identitárias de grande impacto psicossocial que, muitas vezes, não conseguem ser elaboradas de forma satisfatória.

Certos estudos voltados às representações subjetivas e às repercussões sociais de tais gestos (Pommereau – 1997) mostram que a ferida da escarificação vem se sobrepor e até mesmo tomar o lugar de uma outra, muito mais profunda e ameaçadora.

Contudo, é importante lembrar que nem todo gesto de marcação do corpo de um adolescente se inscreve, necessariamente, no campo da psicopatologia. No entanto, na clínica pedopsiquiátrica, devemos sempre verificar a possibilidade de estarmos diante de sinais reveladores de um sofrimento psíquico grave, não identificado pelo adolescente.

A fase da adolescência é uma fase de grandes modificações e incertezas. Podemos citar como principais, tanto as transformações do corpo, quanto as modificações das relações com os outros do mesmo sexo – e sobretudo do sexo oposto -, dentro ou fora da família, adultos ou jovens, grupos ou instituições.

Marion HAZA (2002) considera que, situada entre o psíquico e o fisiológico, a marcação do corpo (piercing ou tatuagem) em adolescentes escolarizados na França entre 15 e 25 anos, fora de todo processo de marginalização social, é antes de tudo um sinal estruturante e facilitador servindo como base psíquica para a construção da identidade.

Nessa população a noção de "dor" engendrada pela gravação ou pela perfuração da pele, emerge com uma força particular, não como um fator estimulante para a realização do gesto, mas como uma experiência iniciática de ultrapassar seus próprios medos e limites.

Suportar essa dor significaria, "provar algo para si mesmo e também para outros".

Essa pesquisa mostrou que se todos os que marcam seus corpos não estão, em princípio, buscando integrar ou pertencer diretamente a um grupo, muitos reconhecem que esses sinais podem se tornar uma "marca de reconhecimento", servindo a se "referenciar", a se "aproximar" e sobretudo a se "identificar" dentro de um grupo.

A dimensão estética ocupa igualmente um lugar importante no projeto de marcação dos corpos, na medida em que é frequentemente buscado um "embelezamento", uma "valorização" e até mesmo uma dimensão de "obra de arte única" sobre a pele.

Um "exibicionismo discreto" se organiza em torno do jogo de mostrar e não mostrar o desenho ou jóia.

O que fica claro na pesquisa é que, analisando mais profundamente o perfil dos jovens, o principal fator motivacional, além da busca e da afirmação da sua identidade é a originalidade e a tentativa de "sair do ordinário".

Já no caso das auto-escarificações, isto é, arranhões ou pequenas incisões provocadas voluntária e secretamente pelo adolescente, o que podemos constatar é a presença importante de angústia e outros sintomas relacionados ao humor e a auto-estima.



Através desse gesto e da ferida física produzida, o sujeito visa, paradoxalmente, aliviar uma outra ferida, esta insuportável, decorrente da angústia podendo inclusive conduzi-lo a cometer atos de suicídio.

"Couper court à la détresse", em português, "cortar a aflição pela raiz", é a expressão utilizada pelo antropólogo francês David Le Breton (2009) para falar dos sofrimentos "controlados" que certos jovens inflingem aos seus envelopes corporais diante dessa angústia, na medida em que ela é difusa e sem limites.

Nesses casos de escarificação, no momento da passagem ao ato, o corpo se transforma num testemunho vivo, sobrevivente de uma forma dramática de morte iminente contra a qual luta o adolescente.

A presença e até mesmo a contemplação das feridas funcionam como âncoras que evitam que o sujeito parta à deriva, terminando por aliviá-lo, mesmo que momentaneamente.

Em seguida, as cicatrizes tornam-se traços da memória existencial do adolescente, juntamente com o sentido que ele atribui.

Tanto no caso das tatuagens quanto no caso das escarificações, esse sujeito pode ficar indefinidamente subjulgado, seja por uma "Marca de valor" seja por um "Sinal infamante", estigma designativo que pode conduzí-lo à diferentes situações, das mais acolhedoras às mais excludentes.











Bibliografia :



Marion HAZA, "A la fleur de peau ou le marquage du corps à l'adolescence", Recherches & éducations, n°2/ 3e trimestre 2002.

David LE BRETON, "Signes d'identité. Tatouages, piercings et outres marques corporelles", Paris Métaillé, 2002.

Pommereau, X., "Quand l'adolescent va mal", JC Lattès, 1997.

Pagès-Delon, M, Le corps et ses apparences. L'envers du look. Editions l'Harmattan, 1989.





Para mim, tão importante quanto o fenômeno “marcas” a ser discutido aqui  é o contexto em que se insere o mesmo.

     Não lembro do momento exato em que Isabella me chamou para compartilhar com ela o projeto OCORPO, mas sim, que era mais uma tentativa de não ficarmos imobilizadas diante das dificuldades encontradas em nossa práxis.

     Entramos por concurso em 1994 e já estávamos em 2001.

     Convivíamos com toda a sorte de limitações e questões : desde instalações inadequadas a falta de um regimento interno que regulasse as relações, falta de projeto institucional, atos de negligência, violência, despreparo, sobejamente conhecidos e várias vezes expostos na mídia. Nosso lugar de trabalho contrariava tudo que havíamos estudado para abordar a adolescência e muito mais a adolescência infratora de Foucault a Paulo Freire. 
   
     Que tal, então, utilizarmos a arte como ferramenta para nos aproximarmos do sintoma “marcas”? Que tal buscarmos o olhar externo para compartilhar esta experiência?

     Daí OCORPO ser estruturado como um evento em que haveria: uma peça teatral , dando-nos a oportunidade de implicá-los no processo; o registro e exposição fotográfica das marcas, tendo em vista a discussão das facções, uma mesa em que convidados nos trariam visões diferenciadas e mais distanciadas do problema. Muitas foram às contribuições que recebemos, algumas delas serão aqui apresentadas.

     O que leva um jovem a sofrer a dor do objeto perfuro-cortante para colocar símbolos de comandos? Ou suásticas? Ou queimar-se fazendo surf ferroviário? Ou tatuar-se com um “anjinho” armado?

     Sabemos que a adolescência é o momento da vida em que abundam as incertezas. As transformações físicas, fisiológicas, psíquicas trazem desconforto e insegurança. Esses sentimentos, ultrapassados com certa dificuldade pela maioria, vai encontrar terreno fértil naqueles que por razões várias sucumbem ao despreparo da família, escola, sociedade. Tornam-se a marca do fracasso de muitos. A marca como sintoma da não inscrição no desejo do Outro.  À rebeldia normal da idade, que permite a uma geração ultrapassar a outra rumo à maturidade, levando a contestação de valores, transforma-se em revolta surda contra qualquer figura de poder. Aprenderam e apreenderam que não existem heróis e bandidos. Estar em sociedade é um fenômeno complexo. No lado daqueles que são tidos como “heróis” encontramos o político e o policial corruptos, a sociedade é injusta e penaliza os mais pobres. As escolas não têm projeto para esses rebeldes, que perturbam a ordem e atrapalham o bom andamento e o cumprimento da norma estabelecida. São expulsos. Muitos analfabetos funcionais. Tornam-se, com frequência, usuários de drogas. Drogas que muitas vezes são utilizadas como medicamento para abrandar diferentes sintomas: ansiedade, depressão, euforia fruto de transtornos mentais não diagnosticadas que antecedem e agravam seus quadros. O ato infracional se inscreve nessa dinâmica de dor e sofrimento.

     Empurrados pelo que encontram na vida, aliam-se àqueles que para ele são figuras míticas e ostentam os valores reconhecidos por esta mesma sociedade: carros, dinheiro, belas mulheres. Querem o que todos querem... Afinal não é a marca da sociedade atual a acumulação de dinheiro e bens como uma finalidade em si?

     No corpo a fidelidade aos que o acolheram, deram sentido a sua vida.

     Cedo devolvem o que receberam: descaso pelo outro, por seus bens, por suas vidas.

     Sabemos que a demonização das drogas e dos drogados, compreensível pela violência do tráfico, agrava a situação destes adolescentes.

     O adolescente autor de ato infracional é visto como não-eu, não existe empatia, nem da sociedade, nem de alguns de seus cuidadores. Aos erros anteriores somam-se as das instituições responsáveis por sua cautela, pela determinação de seu destino. E a reincidência é a norma.

     No jogo de empurra-empurra que se estabelece, ninguém tem culpa pelo insucesso. As relações no sistema, como relações de poder em que na base da pirâmide encontra-se o educando, alvo de toda a desilusão da sociedade, repetem a lógica perversa do descompromisso e do descaso. É aquela história do um que desconta no outro e assim sucessivamente...

     Quem grita, quem bate, quem deixa de atender com urbanidade, por que o faz?

     Todos estão submetidos à mesma penúria.

     O que pode romper essas barreiras?

     A crença de que é possível uma recuperação?

     Uma polidez maior que seja traduzida através de exemplos?

     Regras claras, simples, compartilhadas num regimento interno?

     A certeza de sanções para quem descumprir as regras?

     A participação dos familiares e amigos?

     A participação das instituições que deveriam tomar conta cumprindo o seu papel constitucional?

     Muitas são as indagações e longe estamos das respostas que nos satisfaçam. A “sideração” que se expressa na perplexidade e na impotência pode ser sentida em alguns lugares por onde o projeto passou.

     O projeto de lei, o SINASE (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), aprovada pelo CONANDA (Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente) que aborda de forma mais abragente a questão da adolescência autora de ato infracional talvez aponte uma luz no final do túnel.
O corpo ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é

um espaço que possui desdobramentos: a pele, as

ondas sonoras, a aura da perspiração. Esse corpo físico,

material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é

esta coisa que os outros veem, sondam em seu desejo.

Ele desgasta-se com o tempo. É um objeto de ciência. Os

cientistas o manuseiam e o dissecam: medem sua massa,

sua densidade, seu volume, sua temperatura: analisam

seu movimento; transformam-no. Mas o corpo dos

anatomistas ou dos fisiologistas é radicalmente diferente

do corpo do prazer e da dor.

Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo.

Essa presença constante conosco mesmos dá base a

uma das interrogações fundamentais dos ideólogos. O

sujeito- o eu existe- existe somente encarnado: nenhuma

distância pode se constituir entre nós e nosso corpo.

Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no- ou

pelo- sono, fadiga, na possessão, no êxtase, na morte.

Ele será futuramente um cadáver. Por tudo isso, a

tradição filosófica antiga o entende como prisão da alma,

como um túmulo. Falar da história do corpo equivale

a olhar tudo o que cerca o indivíduo e o contextualiza.

Estamos, definitivamente, diante de um tema de infinitas

proporções. Na história do corpo revela-se o universo

cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da

sociedade. A história do corpo é a história da própria vida

humana.

História do Corpo.

Direção Alain Corbin, Jean – Jacques Courtine, Georges

Vigarello.

Editora Vozes, 2009


.

SOLANGE RODRIGUES, PSIQUIATRA POR ANOS, DA MESMA INSTITUIÇÃO DO DEGASE, ONDE O PROJETO “OCORPO” NASCEU E DESENVOLVEU-SE.

ATUALMENTE, SOLANGE ESTÁ DISTANTE DA INSTITUIÇÃO, POIS APOSENTOU-SE. EU PERMANEÇO NELA, MAS NÃO MAIS EM UNIDADES DE INTERNAÇÃO. PASSEI PELA UNIDADE QUE É A PORTA DE ENTRADA NO SISTEMA, EM SEGUIDA POR ANOS, TRABALHEI NO CENTRO PROFISSIONALIZANTE, E ATUALMENTE ESTOU EM UMA UNIDADE DE SEMI-LIBERDADE.










OS DOIS ÚLTIMOS TEXTOS DE "OCORPO"

CONCLUIREI EM BREVE, PARA QUE POSSA FAZER AJUSTES DE ÚLTIMA HORA.

MAS NÃO DEMORAREI, NO MÁXIMO, ATÉ O FIM DESTA SEMANA.

OBRIGADA PELA COMPREENSÃO.


Isabella

sim, finalmente, encerrando, ou melhor, concluindo a publicação do CATÁLOGO " OCORPO "


TEXTOS DE CARLOS EDUARDO CAMPOS e REGINALDO FAILACCI
E COMPLEMENTO DE SOLANGE RODRIGUES

O corpo ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é

um espaço que possui desdobramentos: a pele, as

ondas sonoras, a aura da perspiração. Esse corpo físico,

material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é

esta coisa que os outros veem, sondam em seu desejo.

Ele desgasta-se com o tempo. É um objeto de ciência. Os

cientistas o manuseiam e o dissecam: medem sua massa,

sua densidade, seu volume, sua temperatura: analisam

seu movimento; transformam-no. Mas o corpo dos

anatomistas ou dos fisiologistas é radicalmente diferente

do corpo do prazer e da dor.

Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo.

Essa presença constante conosco mesmos dá base a

uma das interrogações fundamentais dos ideólogos. O

sujeito- o eu existe- existe somente encarnado: nenhuma

distância pode se constituir entre nós e nosso corpo.

Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no- ou

pelo- sono, fadiga, na possessão, no êxtase, na morte.

Ele será futuramente um cadáver. Por tudo isso, a

tradição filosófica antiga o entende como prisão da alma,

como um túmulo. Falar da história do corpo equivale

a olhar tudo o que cerca o indivíduo e o contextualiza.

Estamos, definitivamente, diante de um tema de infinita

proporções. Na história do corpo revela-se o universo

cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da

sociedade. A história do corpo é a história da própria vida

humana.

História do Corpo.

Direção Alain Corbin, Jean – Jacques Courtine, Georges

Vigarello.

Editora Vozes, 2009.





domingo, 3 de julho de 2016

COMPLEMENTANDO A PARTE DOS TEXTOS DA AUTORA DO CATÁLOGO




“O EU PROFUNDO” *, O OUTRO, O NÓS


Todas as vezes em que temos o ímpeto de fazer , realizar algo, inevitavelmente, pensamos no Outro.
Esse Outro que é nós, e esse Outro, outro mesmo, fora do que consideramos ser.
Existe uma preocupação em ser compreendido, mais do que isso, aceito.
Precisamos assim como os jovens abordados neste catálogo, pertencer. 
Pertencer a um grupo, a uma geração, a um conjunto profissional. 
Precisamos pertencer a um povo,  um bairro,  uma família.
Pertencer, mais que humano, é animal.

Pensei que o capítulo anterior fosse o último, mas percebo que não.
Há mais o que colocar, compartilhar.
Há a necessidade de ser mais completa, mais compreensível, e por que não, mais aceita?
Este aspecto também ajuda a compreender os adolescentes acusados de cometimento de ato infracional (nome compridíssimo, mas o mais justo, me parece). Ajuda no processo de empatia, aceitação. Ajuda na aproximação da questão.

Tenho escrito muito nos últimos tempos, talvez porque esteja envelhecendo.
Tenho expressado bastante as minhas opiniões, nos mais diversos espaços, e ouço de alguns amigos que me exponho muito. Mas sempre foi assim. e embora tenha tentado em alguns momentos pontuais,  não conheço outro jeito. Já melhorei, amadureci, é claro, mas compreendi e aceitei a minha natureza.

Se os adolescentes internados não compreenderem os motivos pelos quais estão ali, naquele momento, nada terá acontecido.
Se os adolescentes não aceitarem o que lhes vai em suas vidas, nada terá acontecido.
Infelizmente, e já o disse aqui, é o que mais acontece nas instituições de recuperação e reeducação. Uma “esquizofrenia geral”, endossada por nós também, operadores do Sistema.

Não posso repetir a feição do objeto que critico, não posso corroborar com o politicamente, educadamente aceitável. E acima de tudo, não desejo.

Gostaria de indicar a leitura de outro “radical”, acusado de ser de direita, um intelectual que respeito muitíssimo, Maingnohli, em seu livro “ Uma Gota de Sangue “. O livro em questão está longe de ser bem aceito pela crítica e público, apesar do status que seu autor possui como profissional atuante que é. E talvez, justamente por isso, eu acredite que esta leitura seja absolutamente essencial, principalmente em se tratando do Brasil atual, seus estereótipos sociais, seu atraso flagrante nos últimos anos de governo com características populistas.

Preciso encerrar de fato, e o farei.

Como todos, sinto-me feliz ao me sentir compreendida e aceita. Mas aprendi ao longo da vida que nem sempre é possível e desejável.
Como todos, gostaria que minha atuação profissional como professora de Artes Cênicas da Secretaria de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, fosse respeitada e valorizada, mas nem sempre foi possível ou desejável.
Prefiro a inquietude dos felizes, ainda que mal compreendidos, ou aceitos pelo senso comum tão prudente, sempre.

Desejo que este catálogo tenha lhe trazido algumas questões legítimas para se pensar, refletir, reformular.
Quero, anseio por melhorias estruturais no atendimento ao adolescente em conflito consigo, não com a lei. Já que a lei é limitada, capenga, e aplicada a poucos.
Tenho esperança no porvir, acredito que, realmente, a atuação de cada um de nós faça diferença para o coletivo.
O nós, para os outros de nós, a partir de nós.



Julho / 2014


* “ O EU PROFUNDO E OS OUTROS EUS” de Fernando Pessoa


FOTOS, PROGRAMAS DE EVENTOS



Programa do evento realizado em parceria com o PRÓ-ADOLESCENTE da UERJ.



Jornal produzido por um grupo da UERJ




As marcas nos corpos adolescentes do Sistema não são apenas produzidas pelos próprios, diretamente. O jovem da foto mostra a enorme cicatriz que tem em sua cabeça, fruto de uma coronhada ao ser apreendido pela Polícia do Rio de Janeiro/PMERJ. Foi apreendido pelo envolvimento com o tráfico de drogas da área em que morava. Permitiu que eu fizesse o registro fotográfico, mas sentia-se incomodado em relação à marca, era um jovem, arredito, silencioso, mas acessível e crítico, apesar de poucos amigos, ali.




Segundo este adolescente, o número quinze refere-se ao número da facção na área. Seriam as áreas pertencente a este Comando (Vermelho), na cidade do Rio de Janeiro.



Evento do Projeto OCORPO no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ  -  Praia Vermelha  - com a participação de acadêmicos desta Instituição e equipe do Projeto.








"PAZ, JUSTIÇA E LIBERDADE", slogan do Comando Vermelho. Os adolescentes fotografados desconhecem a origem da frase que inscrevem em seus corpos, só sabem que é o "lema do Comando".




Exemplo de tentativa de sair deste universo marcado pela relação com o crime organizado. Este jovem fazia uma tatuagem de pássaro, quando foi apreendido. Disse a mim, que quando saísse, iria terminá-la e nunca mais voltaria para aquele lugar. Intimamente, torcíamos para que estivesse certo, embora a reincidência fosse acentuada nos últimos anos.





Último evento organizado em instituições, com exposição de fotos e debate aberto.
Instituição voltada para as questões femininas, convidamos as lideranças dos movimentos de mães e pais de adolescentes infratores, representantes de mais de uma associação, inclusive com abordagens diferentes entre si. Como já foi dito, a adesão foi pequena, em grande parte, pela falta de recursos materiais das mulheres, para estarem presentes e discutir a estreita relação existente entre adolescentes do sexo masculino com suas mães, avós, madrinhas, vizinhas, companheiras, namoradas, filhas, etc.

  
A ex-delegada, ex-secretária de segurança e parlamentar Marta Rocha, presidia a referida instituição à época, início dos anos 2000. Ela teve a sensibilidade e cuidado de manter o evento, contrariando uma "sutil" recomendação da direção do Degase, também à época, do militar reformado, Sérgio Novo. Este digníssimo senhor, tentou sem sucesso, punir-me com um processo administrativo, alegando inclusive, a um juiz especializado em Infância e Juventude, que os recursos materiais do Projeto OCORPO não seriam nossos, mas sim do Degase, o que se provou, mas o fato desagradável permaneceu em nossa memória mental e corporal: o medo e a necessidade de ultrapassá-lo.
 

quinta-feira, 30 de junho de 2016





Cartaz do evento ocorrido na UERJ, organizado em conjunto com o Pró-Adolescente da mesma instituição, e a equipe do Projeto OCORPO.


CORPO: tudo que tem extensão e forma.




     Quando olhamos um corpo adolescente, o quê percebemos? Um corpo em clara transformação acentuada.  Ao marcar ou ter o próprio corpo marcado com uma inscrição de comando criminoso, o adolescente tem conferido ao seu corpo o sentido de um pertencimento. Qual é a extensão deste? Quando um corpo é circunscrito a uma marca que o acompanhará por toda a vida, inevitavelmente estará atrelado ao seu valor simbólico. A marca poderá até mesmo representá-lo antes de qualquer outro aspecto que ele apresente de sua individualidade, e neste sentido a reduz, enormemente, como sujeito. Toda a carga simbólica de uma marca de comando criminoso num corpo adolescente é capaz de impedir qualquer possibilidade de expansão desse mesmo jovem, uma vez que, inevitavelmente, atrairá identificações e rejeições imediatas. Muito facilmente, ele mesmo não se reconhecerá mais sem a sua presença, tornando definitivo, um pertencimento às vezes circunstancial.

     A inscrição de um comando gravada na pele estende por sua vez, potencialmente, o poder da organização a que pertence, na medida que alarga seu território através dos corpos que a carregam. Extensão e forma multiplicados.

     Ainda que o adolescente converta-se num outdoor ambulante, chamando para si opositores e a força policial, a necessidade de fazer parte de algo relevante é maior. Trata-se da relevância que o tráfico de drogas adquiriu junto ao imaginário de jovens. O tráfico manifesta seu poder através de armamento, do acesso a bens de consumo, do poder como intimidação, o que atrai sexo e admiração ancorada no medo. Esses valores são difundidos sistematicamente por uma sociedade onde a formação intelectual perdeu seu status, e o consumo, a vaidade e o imediatismo alcançaram posições estratosféricas. O tráfico de drogas, e todas as práticas relacionadas a ele, são a expressão grotesca desses valores que estão na ordem do dia. Parte da extensão e forma do caráter de uma nova sociedade.

    A relação existente entre o imaginário e a prática concreta ligada ao tráfico de drogas representa a meu ver, o maior dano causado a gerações sucessivas, abandonadas pelo Estado e muitas vezes, por suas famílias. Os adolesentes que se encontram cumprindo medidas socioeducativas no Sistema de Atendimento representam apenas àqueles que foram pegos em flagrante, não o contingente de jovens que vivem o dia-a-dia das chamadas comunidades, que estão submetidos ao poder e a atração pelo crime, fazendo ou não parte de comandos. A população dessas localidades é refém, literalmente, mas também engrossa o caldo do descaso oficial, na medida que estabelece uma relação dúbia com o opressor. Ora o traficante é o mal que os atinge, ora é o benfeitor de todos os desvalidos. Um jogo complexo de relações se estabelece, e se fortalece no silêncio interno e externo às comunidades. Ignoramos as regras ou a ausência das mesmas nos confunde?

    Na tentativa de apreender esses corpos, não podemos destacá-los sem que o espaço que ocupam e pelo qual se movimentam, seja reconhecido. Os limites dos becos e vielas, o ar que circula pouco e de forma interrompida e os espaços exíguos criam uma variedade de interdições, que marcam esses corpos. Essas impressões nos chamam a atenção? Ao pensar a configuração desses corpos, tais dados fazem parte dos retratos que traçamos ou que por eles são traçados?  Há uma naturalização da falta, uma banalização das necessidades que esses corpos têm como quaisquer outros.




SARTRE JOVEM, EU, NEM TANTO



Estava esperando o nosso advogado, quando resolvi entrar

em uma banca de jornal próxima ao Fórum do Rio de

Janeiro.

Quase chovia, o tempo esfriava, ele que é bom, nada.

Mas por conta disso, fiz uma excelente descoberta: Sartre

em sua juventude. Antes do existencialismo, Pós-Guerra,

enfim outro Sartre, ou ainda parte do que seria mais conhecido

depois, só que com mais frescor, na minha modestíssima

opinião.

Nunca tive predileção por Sartre, filosoficamente falando,

muito influenciada por um professor que tive, que o achava

um pensador , digamos, menor.

Mas agora, longe dos dezenove anos, com precisamente

52, descubro que gosto, sim, de Sartre. Não sei se o velho,

mas o jovem, com certeza.

Trata-se do livro “ A Imaginação “, e aí, tudo recomeça em

termos de meu projeto de fazer um livro ou catálogo, sobre

esta experiência dividida com vocês.

“ É preciso fazer a psicologia tradicional entender que suas

imagens com arestas vivas não constituem senão a mínima

parte de uma consciência concreta e viva. Dizer que a

consciência contém apenas esse tipo de imagens equivale

a dizer que um rio contém apenas baldes d’água ou outros

volumes contidos em seus recipientes, copos, litros ou

tonéis. “ ( pág. 75 – Edição LPM - Pocket - 2013 )


A imaginação atravessa a questão abordada neste espaço

de forma decisiva.

Muitas vezes, o envolvimento desses adolescentes se dá

em seus imaginários, o que não deixa de ser concreto,

palpável, mas ainda assim não tem realidade no sentido

imediato do termo.

Ao ler este pequeno e excelente livro, questões como esta,

retornaram com força e retomei a escrita.

CORPO E IMAGINAÇÃO, neste caso, andam

indissociavelmente juntos. Lembremos-nos que se trata

de jovens, com uma vida emocional intensa, profundas

transformações, hormônios em polvorosa, solidão.

Não esqueçamos o quanto fomos inseguros neste período

de nossas vidas, o quanto ansiamos por partilhar, o quanto

desejamos ser aceitos.

A adolescência é um período em que tudo de nós está

em jogo, nossos valores, estética, saúde, vícios e manias,

hábitos e atitudes, moral, afeto, simpatias ou não,

identificações e finalmente, nossa poderosa imaginação.

Dela também dependerá os sonhos que sonharmos neste

período.

Dela dependerá também nossa saúde mental, nosso

humor, nossa resiliência que se constrói.

A imaginação nos constitui e somos constituídos por ela.

A imaginação é tudo que não cabe no que chamam de real,

ou ainda, tudo que se transborda deste real.

Ela nos salva, nos restitui a esperança.

Ela pode nos tornar grandes ou aniquilar-nos, antes que

qualquer um o faça ou uma situação.

Daí sua fundamental presença.

Quando uma criança não imagina, dificilmente cria.

Quando uma criança não imaginou ou sonhou pouco, há

grandes chances de não ter fé em si mesma, porque não

foi capaz de se superar internamente, de criar campos de

força, de travar guerras silenciosas, mas muito danosas,

que podemos travar conosco em qualquer tempo.

Ao ler este Sartre jovem, também eu, rejuvenesci, ganhei

frescor para a escrita.

Não é nada extenso em termos de continuidade, mas a

meu ver, fundamental.

Sartre tem uma honestidade que admiro muitíssimo, ao

escrever.

Tem verdade e compromisso, qualidades raras dentro e

fora da literatura, de qualquer tempo ou estilo.

As máscaras persistem em todos e em tudo que recobre o

real.

Falar de corpo é falar também de máscaras, invólucros,

recipientes, como ele diz na citação feita acima.

As máscaras alimentam o real e a ficção, estão em toda

parte, colam-se aos corpos, determinam muitas vezes,

suas existências.

A imaginação produz máscaras muito poderosas, e às

vezes, ainda que queiram quem as portam, é difícil e

trabalhoso, livrar-se delas.

Os adolescentes em questão aqui, vivem este dilema.

Alguns, não poucos, querem mudar, querem ser vistos

de outra forma, mas o estigma/máscara não permite,

até que eles mesmos se convencem que é impossível,

e permanecem com as máscaras com as quais já estão

acostumados.

A sociedade, o chamado “entorno “ (decididamente, não

gosto dessa palavra ) faz sua parte muito bem.

Trata de rotular de forma definitiva, desacreditar.

Investe na perda da fé, na fofoca, no trocadilho e piada.

É triste, mas é. É pouco, mas continua sendo. É fatal, mas

ninguém liga. Então é possível, muito possível que a morte

venha, mas ela não determina mais nada, não modifica,

não transforma ou redime.

A morte de adolescentes infratores é quase um suspiro

para os que ficam, menos um, menos um sofredor para

os crédulos, menos um bandidinho para o ódio armado.

Menos imaginação, mais máscara.

Encerro por aqui, sabendo é claro, que o tema não se

esgota na publicação simples de um catálogo, nem

tampouco na execução de um projeto. O tema nos

atravessa e continuará atravessando-nos, diariamente.

a cada sinal fechado e nosso medo de assaltos, a cada

notícia envolvendo menores de idade veiculada pelos

meios de comunicação, a cada susto.

Falar de adolescentes infratores não é lá muito agradável,

palatável. Há sempre uma atmosfera de incômodo no

ambiente. Há sempre medo e/ou culpa. Receio de ser

injusto. Receio de ser justo. Receio.

Estou quase me aposentando, e começo a repensar minha

trajetória de contato de dezenove anos com esses jovens.

Não foi tranquilo, mas não por eles, com os quais interagi

de forma fluida. Mas as instituições, sempre elas, com

suas doses maiores ou menores de perversidade, seu

abandono, seu descaso.

Mas também aprendi ao longo deste tempo, que é possível,

e vi processos muito interessantes, vi meninos felizes,

confiantes na mudança. E nisso o perfume é fantástico,

porque ele aumenta nossa auto-estima, injeta prazer nos

nossos corpos, no ar.

O perfume foi uma descoberta pedagógica, para mim,

também me trouxe leveza, esperança, prazer de estar em

sala de aula.

Na verdade, eu e ele nos apoiamos uns nos outros, nos

enchemos de algo que ainda não conseguiram destruir: a

relação professor/aluno.

Quando esta consegue acontecer, conhecemos o melhor

dos mundos, o melhor da vida.

Junho / julho 2014
 


terça-feira, 31 de maio de 2016

Retomando os trabalhos

NOTA

Informamos na última postagem que na semana seguinte colocaríamos mais capítulos do catálogo "OCORPO",mas por questões de ordem pessoal,deixamos de fazê-lo.
Agora, no mês de junho, completaremos a publicação  dos textos e  fotos restantes.
Continue nos acompanhando,e se possível, expresse suas impressões e comentários.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Informações sobre a postagem do catálogo OCORPO


Prezados Amigos

Postamos até aqui, a Apresentação, Introdução e um capítulo chamado A exposição do adolescente ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro, além de duas fotos do Projeto OCORPO.
Como já mencionamos, o Catálogo será publicado em partes, portanto na próxima semana teremos mais publicações.

Obrigada pela atenção e interesse.

Isabella

OCORPO


   A EXPOSIÇÃO DO ADOLESCENTE AO TRÁFICO DE DROGAS NO RIO DE
   JANEIRO



   Existe um trabalho cuidadoso do jornalista Carlos Amorim, Comando Vermelho, livro que aborda a história da maior facção criminosa do Rio de Janeiro, que é um RX bastante preciso da questão. O livro de Amorim é de uma atualidade impressionante, se pensarmos que é uma publicação de 1993, e um retrato de uma tragédia anunciada.   Contextualiza em detalhes, o universo em que os jovens abordados aqui, se encontram. Faz-nos compreender que não se trata de uma situação nova, mas de apenas um figurino atualizado. Pois o problema do adolescente que ingressa no tráfico de drogas está longe de ser atacado de forma contundente
.
   Nós, profissionais que lidamos em maior ou menor instância, com adolescentes infratores provenientes de comunidades empobrecidas, certamente gostaríamos de ver a discussão deste importante tema na pauta de prioridades dos governos. Mas o que assistimos é mais do mesmo, a ausência de políticas públicas para esta faixa etária da população, descaso e incompetência da máquina governamental. E por outro lado, observamos que estamos muito aquém do que podemos realizar em termos de atendimento, assim como de produção acadêmica.

   O adolescente infrator perdeu espaço de questionamento, mas ganhou espaço na mídia sensacionalista que advoga a causa da maioridade penal. Uma discussão velha, já enfrentada pelos defensores do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, com os chamados menoristas, que acreditavam ser o antigo Código de Menores, a referência para trabalho com esses desajustados, provenientes de famílias desestruturadas. Essa ladaínha continua em voga, embora hoje ninguém mais se intitule menorista, e os magistrados defensores do Código estejam caducos ou mortos. Mas a postura continua muito viva, obrigada. E o atendimento ao adolescente que cumpre medida socioeducativa, é prova disso. Não porque, a maioria dos profissionais envolvidos neste atendimento não acredite e lute para a efetivação do ECA, e mais recentemente, das normativas contidas no SINASE, mas porque a prática coercitiva é resistente e conta, infelizmente, com muitos adeptos. Caminhamos, é claro, mas ainda estamos longe da humanização e eficiência do atendimento ao adolescente infrator. O resultado da falta de seriedade ao tratar a questão, todos nós conhecemos. E conhecemos também o medo ao sermos abordados por um jovem à rua, armado, nos agredindo. O medo não é prerrogativa de nenhum dos dois lados, nem a violência.

   Não precisamos de soluções mágicas, novas leis que redefinam o atendimento ao jovem infrator no Brasil. Precisamos urgentemente de colocar em prática efetivamente o que já se conquistou. Necessitamos encarar as dificuldades e desafios sob vários ângulos, desde a qualidade do ensino público em nosso país, passando por estrutura básica urbanística, saúde integral, políticas públicas voltadas para esta faixa etária, contundência.

   A situação é muito grave na medida que a reincidência cresce, sem que paremos para analisá-la devidamente. Não sabemos em profundidade e extensão, as reais motivações que levam o adolescente a uma alternativa de violência, em primeira instância, contra si próprio.  De onde vem tanto descrédito em si? De onde e para quem se dirige sua raiva? Afinal, quem é ele?

   Nos últimos dezoito anos, desde a estadualização do atendimento ao adolescente infrator, saindo da esfera federal (FUNABEM) para a estadual, com cada um dando uma feição ao ECA, muita coisa parece ter mudado, mas não. O Estatuto de 1990 continua sendo desconhecido e desrespeitado por várias instâncias, o SINASE que normatiza este atendimento é ainda mais ignorado. Poucas são as unidades do país que realmente o tem como referência para o trabalho que desenvolvem. É um fato, mas nada com o qual já não estamos acostumados, uma vez que nosso país é eternamente um país do futuro. O que nos é plenamente possível realizar agora, não se efetiva. Perdemos o bonde, o trem da história, a história em si. Convivemos com uma aminésia útil à perpetuação da ineficiência, da grande teta que jorra recursos nacionais e internacionais, com as inúmeras viagens de equipes governamentais para eventos da Unesco e quitais. Temos abundância, somos criativos e versáteis, nos orgulhamos de nosso jeitinho entre o moleque e o safo, entre o país com perfil de potência mundial e a eterna colônia que abriga revoltosos. Afinal qual é o corpo do Brasil?