quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Informações sobre a postagem do catálogo OCORPO


Prezados Amigos

Postamos até aqui, a Apresentação, Introdução e um capítulo chamado A exposição do adolescente ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro, além de duas fotos do Projeto OCORPO.
Como já mencionamos, o Catálogo será publicado em partes, portanto na próxima semana teremos mais publicações.

Obrigada pela atenção e interesse.

Isabella

OCORPO


   A EXPOSIÇÃO DO ADOLESCENTE AO TRÁFICO DE DROGAS NO RIO DE
   JANEIRO



   Existe um trabalho cuidadoso do jornalista Carlos Amorim, Comando Vermelho, livro que aborda a história da maior facção criminosa do Rio de Janeiro, que é um RX bastante preciso da questão. O livro de Amorim é de uma atualidade impressionante, se pensarmos que é uma publicação de 1993, e um retrato de uma tragédia anunciada.   Contextualiza em detalhes, o universo em que os jovens abordados aqui, se encontram. Faz-nos compreender que não se trata de uma situação nova, mas de apenas um figurino atualizado. Pois o problema do adolescente que ingressa no tráfico de drogas está longe de ser atacado de forma contundente
.
   Nós, profissionais que lidamos em maior ou menor instância, com adolescentes infratores provenientes de comunidades empobrecidas, certamente gostaríamos de ver a discussão deste importante tema na pauta de prioridades dos governos. Mas o que assistimos é mais do mesmo, a ausência de políticas públicas para esta faixa etária da população, descaso e incompetência da máquina governamental. E por outro lado, observamos que estamos muito aquém do que podemos realizar em termos de atendimento, assim como de produção acadêmica.

   O adolescente infrator perdeu espaço de questionamento, mas ganhou espaço na mídia sensacionalista que advoga a causa da maioridade penal. Uma discussão velha, já enfrentada pelos defensores do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, com os chamados menoristas, que acreditavam ser o antigo Código de Menores, a referência para trabalho com esses desajustados, provenientes de famílias desestruturadas. Essa ladaínha continua em voga, embora hoje ninguém mais se intitule menorista, e os magistrados defensores do Código estejam caducos ou mortos. Mas a postura continua muito viva, obrigada. E o atendimento ao adolescente que cumpre medida socioeducativa, é prova disso. Não porque, a maioria dos profissionais envolvidos neste atendimento não acredite e lute para a efetivação do ECA, e mais recentemente, das normativas contidas no SINASE, mas porque a prática coercitiva é resistente e conta, infelizmente, com muitos adeptos. Caminhamos, é claro, mas ainda estamos longe da humanização e eficiência do atendimento ao adolescente infrator. O resultado da falta de seriedade ao tratar a questão, todos nós conhecemos. E conhecemos também o medo ao sermos abordados por um jovem à rua, armado, nos agredindo. O medo não é prerrogativa de nenhum dos dois lados, nem a violência.

   Não precisamos de soluções mágicas, novas leis que redefinam o atendimento ao jovem infrator no Brasil. Precisamos urgentemente de colocar em prática efetivamente o que já se conquistou. Necessitamos encarar as dificuldades e desafios sob vários ângulos, desde a qualidade do ensino público em nosso país, passando por estrutura básica urbanística, saúde integral, políticas públicas voltadas para esta faixa etária, contundência.

   A situação é muito grave na medida que a reincidência cresce, sem que paremos para analisá-la devidamente. Não sabemos em profundidade e extensão, as reais motivações que levam o adolescente a uma alternativa de violência, em primeira instância, contra si próprio.  De onde vem tanto descrédito em si? De onde e para quem se dirige sua raiva? Afinal, quem é ele?

   Nos últimos dezoito anos, desde a estadualização do atendimento ao adolescente infrator, saindo da esfera federal (FUNABEM) para a estadual, com cada um dando uma feição ao ECA, muita coisa parece ter mudado, mas não. O Estatuto de 1990 continua sendo desconhecido e desrespeitado por várias instâncias, o SINASE que normatiza este atendimento é ainda mais ignorado. Poucas são as unidades do país que realmente o tem como referência para o trabalho que desenvolvem. É um fato, mas nada com o qual já não estamos acostumados, uma vez que nosso país é eternamente um país do futuro. O que nos é plenamente possível realizar agora, não se efetiva. Perdemos o bonde, o trem da história, a história em si. Convivemos com uma aminésia útil à perpetuação da ineficiência, da grande teta que jorra recursos nacionais e internacionais, com as inúmeras viagens de equipes governamentais para eventos da Unesco e quitais. Temos abundância, somos criativos e versáteis, nos orgulhamos de nosso jeitinho entre o moleque e o safo, entre o país com perfil de potência mundial e a eterna colônia que abriga revoltosos. Afinal qual é o corpo do Brasil? 


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

FOTOS DO PROJETO "OCORPO"



Tatuagem de adolescente infrator que cumpre medida de internação em instituição do Rio de Janeiro.
Estas imagens fizeram parte da divulgação do evento realizado em parceria com a UERJ - Pró-Adolescente.
Auto-retrato?

Foto de 2001

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

PROJETO OCORPO

Intodução


 
 O despertar para estes corpos marcados se deu no contato cotidiano como professora de artes cênicas, numa instituição de internação para infratores. Normalmente os jovens circulam com shorts e camiseta, deixando braços e parte das pernas desnudos, o que permitiu que a incidência maior de marcas corporais fosse observada. Uma instituição desse tipo desfaz individualidades muito rapidamente, mas as marcas observadas de alguma maneira os singularizava. As escarificações e tatuagens referentes à relação com o crime organizado no Rio de Janeiro, de repente saltava aos olhos. Não era mais possível ignorar que a prática de se marcar ou ser marcado, demonstrava a ascenção desses grupos sobre adolescentes de localidades que convivem com as imposições do tráfico de drogas, que dentro e fora da instituição necessitavam explicitar através de seus corpos a que grupo pertenciam.

   A exemplo do sistema penitenciário para adultos, reivindicavam espaços físicos delimitados de acordo com a facção a que pertenciam, embora tal questão não estivesse explícita em seus discursos, mas antes em suas atitudes. Já não se referiam aos locais que ocupavam como “alojamentos” e sim “galerias”, termo utilizado em prisões. A rivalidade encontrada fora dos muros se expressava  dentro da instituição, enquanto seus corpos como bandeiras divulgavam a supremacia desta ou daquela facção criminosa.
 
    Este comportamento era observado pela instituição, mas parecia não haver muitas alternativas, afinal tratava-se da integridade física de adolescentes que estão sob a tutela do Estado, e qualquer funcionário que ignorasse esta realidade poderia sofrer sanções, sendo responsabilizado legalmente por incidentes envolvendo adolescentes internos.  Entre a perplexidade e o estarrecimento, os diferentes profissionais que fazem o atendimento aos adolescentes não poderiam ignorar esses territórios, o que na prática equivalia a chamar a atenção de magistrados, através de relatórios,  para os perigos desse ou daquele adolescente ser encaminhado para esse ou aquele local, durante o processo judicial, por exemplo. Muitas vezes se fazia necessário até mesmo separá-los em grupos durante as atividades desenvolvidas na unidade.

   A construção da realidade passa por camadas algumas vezes formadas involuntariamente, mas não menos decisivas. Todos ali, de alguma forma contribuíram para o fortalecimento do imaginário ligado aos comandos criminosos.

   A maior incidência dessas marcas corporais levou à necessidade do registro, daí nasceu um projeto chamado OCORPO, que pretendia discutir esse fenômeno dentro e fora da instituição. As fotos estiveram presentes em espaços acadêmicos e outros, sempre causando comoção, mas acima de tudo impacto, o que levava a mim e Solange, psiquiatra que desenvolvia o projeto juntamente comigo, a pensar na relação de todos nós com este objeto, o corpo. Ao ver as fotos as pessoas sentiam-se próximas ou ainda mais distantes da realidade que as inspirou? O que as fotos provocavam? Horror? Alívio? Ou ambos?

   A exposição de fotos do referido projeto era acompanhada de uma esquete de apenas cinco minutos feita pelos alunos de artes cênicas. Além disso, em parceria com as instituições que recebiam o projeto, debates eram organizados com enfoques diferenciados. Os resultados foram bastante satisfatórios, mas após três anos de existência sentíamos a necessidade de ampliar o debate junto as famílias dos adolescentes, nos aproximarmos do ponto de vista de quem vive a mesma realidade. Nesta oportunidade, embora o debate tenha sido interessante, foi limitado pelo número pequeno de participantes, pois os familiares não tinham dinheiro para o transporte. Este é um fator determinante em qualquer iniciativa de trabalho com os familiares dos adolescentes infratores, e ao mesmo tempo um reforço na cultura assistencialista, uma espécie de aprisionamento a que estão submetidos  todos , usuários dos serviços e profissionais envolvidos.

   O projeto neste formato esgotava-se, mas as marcas ainda se destacavam como objeto inquietante num território imenso, o corpo.



                                                                                                                                                           

PROJETO OCORPO

APRESENTAÇÃO


   O Projeto OCORPO nasceu da observação do aumento de marcas corporais nos adolescentes de uma unidade de internação para infratores, na cidade do Rio de Janeiro, estado do Rio de Janeiro, Brasil.

   Não se trata de uma observação pontual, feita por um visitante, mas da constatação de duas profissionais desta unidade, uma professora de artes cênicas e uma psiquiatra, que decidiram registrar o fenômeno e tentar compreendê-lo.  As marcas corporais em questão são escarificações em sua maioria, e também tatuagens, que explicitam o envolvimento destes jovens com facções criminosas do Rio.

   Este catálogo traz o registro fotográfico de alguns destes corpos, feitos em 2001, portanto há doze anos atrás. Mas o que poderia parecer datado, soa como um prenúncio do fortalecimento do crime organizado, com participação efetiva de adolescentes, oriundos de favelas em sua maioria.

   Ainda que hoje estejamos vivendo o advento das Unidades de Polícia Pacificadora, UPPs,  nas chamadas comunidades, e o discurso em vigor seja o da transformação; o envolvimento dos adolescentes com o tráfico de drogas permanece determinante. O tráfico ocupa um lugar de destaque dentro e fora destes corpos. Estes, sim, em mutação.
                                                                                                                                                                                       
      Neste longo período, a linguagem também se modificou, e favelas passam a ser chamadas de comunidades, jovens infratores são adolescentes em conflito com a lei, o que não quer dizer que tenhamos evoluído. A situação do adolescente que nasceu e vive em comunidades sem estrutura básica, é alarmante, triste.  Em nada lembra o orgulho cantado em funk - melodies, com frases do tipo: “o que eu quero é ser feliz, morar na favela onde eu nasci, e poder me orgulhar...”

   O que as marcas corporais revelam é algo bem diferente da felicidade e orgulho cantados. Falam de uma extrema necessidade de pertencimento, de um não acolhimento, de solidão e ausência de perspectivas satisfatórias. Falam da ascenção do tráfico de drogas, de seus métodos, de sua extrema violência.

   O que se pretende aqui é discutir o adolescente, não um adolescente qualquer, mas um específico, aquele que submetido a um contexto limitador, nem sempre consegue ultrapassá-lo. Aquele que apesar da pouca idade, não tem muitas esperanças e já está marcado por um fatalismo auto declarado. Mas que ao mesmo tempo está aí, vivo e podendo mudar o rumo das coisas. São esses jovens que são meus alunos de artes cênicas e perfumaria por anos, e a eles dedico este trabalho.

    O catálogo conta com a colaboração de profissionais que lidam com a temática da adolescência, mas acima de tudo se interessam por ela. Com alguns tive a oportunidade de trabalhar, especialmente com Solange Rodrigues, psiquiatra que construiu comigo o projeto OCORPO, que dá origem e nome a este livro. Palmyr Virginio Jr., psiquiatra também, com quem atuei juntamente com Solange, implantando a Apsys Rio, associação franco-brasileira que tinha como foco o encontro de profissionais e práticas envolvendo jovens em risco. Maria Helena Zamora, professora de Psicologia Social, profundamente envolvida com as questões da área de direitos humanos, com especial atenção ao jovem. Carlos Eduardo Campos e Reginaldo Failacci, respectivamente pedagogo e comunicador, mas na área que tratamos aqui, agentes educacionais.


    São, todos, profissionais profundamente interessados na questão do jovem e a construção simbólica de suas relações.

    Este livro é um diálogo com o que estes profissionais pensam sobre as marcas corporais, e sobretudo sobre o adolescente, seu universo, seus embates, sua força e resistência. Não tem a intenção de criar um corpo único de percepções, ao contrário, escolhe a liberdade de movimento no olhar e registro.

    Ao longo dos capítulos veremos definições de dicionários para a palavra corpo, assim como títulos que remetem as suas possibilidades.

São exercícios na verdade, onde apenas ressaltamos que as tentativas de limitar sua significação estão sempre aquém do seu imenso campo semântico.
              CATÁLOGO DO PROJETO


                        OCORPO

A partir de hoje, publicaremos o catálogo em partes.

As marcas sempre tiveram presentes na vida humana, produzidas por inúmeras motivações.
Pensar o corpo como lugar de memória é um dos destaques de OCORPO.
Finalmente, este projeto será disponibilizado neste Blog.