terça-feira, 26 de janeiro de 2016

PROJETO OCORPO

APRESENTAÇÃO


   O Projeto OCORPO nasceu da observação do aumento de marcas corporais nos adolescentes de uma unidade de internação para infratores, na cidade do Rio de Janeiro, estado do Rio de Janeiro, Brasil.

   Não se trata de uma observação pontual, feita por um visitante, mas da constatação de duas profissionais desta unidade, uma professora de artes cênicas e uma psiquiatra, que decidiram registrar o fenômeno e tentar compreendê-lo.  As marcas corporais em questão são escarificações em sua maioria, e também tatuagens, que explicitam o envolvimento destes jovens com facções criminosas do Rio.

   Este catálogo traz o registro fotográfico de alguns destes corpos, feitos em 2001, portanto há doze anos atrás. Mas o que poderia parecer datado, soa como um prenúncio do fortalecimento do crime organizado, com participação efetiva de adolescentes, oriundos de favelas em sua maioria.

   Ainda que hoje estejamos vivendo o advento das Unidades de Polícia Pacificadora, UPPs,  nas chamadas comunidades, e o discurso em vigor seja o da transformação; o envolvimento dos adolescentes com o tráfico de drogas permanece determinante. O tráfico ocupa um lugar de destaque dentro e fora destes corpos. Estes, sim, em mutação.
                                                                                                                                                                                       
      Neste longo período, a linguagem também se modificou, e favelas passam a ser chamadas de comunidades, jovens infratores são adolescentes em conflito com a lei, o que não quer dizer que tenhamos evoluído. A situação do adolescente que nasceu e vive em comunidades sem estrutura básica, é alarmante, triste.  Em nada lembra o orgulho cantado em funk - melodies, com frases do tipo: “o que eu quero é ser feliz, morar na favela onde eu nasci, e poder me orgulhar...”

   O que as marcas corporais revelam é algo bem diferente da felicidade e orgulho cantados. Falam de uma extrema necessidade de pertencimento, de um não acolhimento, de solidão e ausência de perspectivas satisfatórias. Falam da ascenção do tráfico de drogas, de seus métodos, de sua extrema violência.

   O que se pretende aqui é discutir o adolescente, não um adolescente qualquer, mas um específico, aquele que submetido a um contexto limitador, nem sempre consegue ultrapassá-lo. Aquele que apesar da pouca idade, não tem muitas esperanças e já está marcado por um fatalismo auto declarado. Mas que ao mesmo tempo está aí, vivo e podendo mudar o rumo das coisas. São esses jovens que são meus alunos de artes cênicas e perfumaria por anos, e a eles dedico este trabalho.

    O catálogo conta com a colaboração de profissionais que lidam com a temática da adolescência, mas acima de tudo se interessam por ela. Com alguns tive a oportunidade de trabalhar, especialmente com Solange Rodrigues, psiquiatra que construiu comigo o projeto OCORPO, que dá origem e nome a este livro. Palmyr Virginio Jr., psiquiatra também, com quem atuei juntamente com Solange, implantando a Apsys Rio, associação franco-brasileira que tinha como foco o encontro de profissionais e práticas envolvendo jovens em risco. Maria Helena Zamora, professora de Psicologia Social, profundamente envolvida com as questões da área de direitos humanos, com especial atenção ao jovem. Carlos Eduardo Campos e Reginaldo Failacci, respectivamente pedagogo e comunicador, mas na área que tratamos aqui, agentes educacionais.


    São, todos, profissionais profundamente interessados na questão do jovem e a construção simbólica de suas relações.

    Este livro é um diálogo com o que estes profissionais pensam sobre as marcas corporais, e sobretudo sobre o adolescente, seu universo, seus embates, sua força e resistência. Não tem a intenção de criar um corpo único de percepções, ao contrário, escolhe a liberdade de movimento no olhar e registro.

    Ao longo dos capítulos veremos definições de dicionários para a palavra corpo, assim como títulos que remetem as suas possibilidades.

São exercícios na verdade, onde apenas ressaltamos que as tentativas de limitar sua significação estão sempre aquém do seu imenso campo semântico.

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