terça-feira, 26 de janeiro de 2016

PROJETO OCORPO

Intodução


 
 O despertar para estes corpos marcados se deu no contato cotidiano como professora de artes cênicas, numa instituição de internação para infratores. Normalmente os jovens circulam com shorts e camiseta, deixando braços e parte das pernas desnudos, o que permitiu que a incidência maior de marcas corporais fosse observada. Uma instituição desse tipo desfaz individualidades muito rapidamente, mas as marcas observadas de alguma maneira os singularizava. As escarificações e tatuagens referentes à relação com o crime organizado no Rio de Janeiro, de repente saltava aos olhos. Não era mais possível ignorar que a prática de se marcar ou ser marcado, demonstrava a ascenção desses grupos sobre adolescentes de localidades que convivem com as imposições do tráfico de drogas, que dentro e fora da instituição necessitavam explicitar através de seus corpos a que grupo pertenciam.

   A exemplo do sistema penitenciário para adultos, reivindicavam espaços físicos delimitados de acordo com a facção a que pertenciam, embora tal questão não estivesse explícita em seus discursos, mas antes em suas atitudes. Já não se referiam aos locais que ocupavam como “alojamentos” e sim “galerias”, termo utilizado em prisões. A rivalidade encontrada fora dos muros se expressava  dentro da instituição, enquanto seus corpos como bandeiras divulgavam a supremacia desta ou daquela facção criminosa.
 
    Este comportamento era observado pela instituição, mas parecia não haver muitas alternativas, afinal tratava-se da integridade física de adolescentes que estão sob a tutela do Estado, e qualquer funcionário que ignorasse esta realidade poderia sofrer sanções, sendo responsabilizado legalmente por incidentes envolvendo adolescentes internos.  Entre a perplexidade e o estarrecimento, os diferentes profissionais que fazem o atendimento aos adolescentes não poderiam ignorar esses territórios, o que na prática equivalia a chamar a atenção de magistrados, através de relatórios,  para os perigos desse ou daquele adolescente ser encaminhado para esse ou aquele local, durante o processo judicial, por exemplo. Muitas vezes se fazia necessário até mesmo separá-los em grupos durante as atividades desenvolvidas na unidade.

   A construção da realidade passa por camadas algumas vezes formadas involuntariamente, mas não menos decisivas. Todos ali, de alguma forma contribuíram para o fortalecimento do imaginário ligado aos comandos criminosos.

   A maior incidência dessas marcas corporais levou à necessidade do registro, daí nasceu um projeto chamado OCORPO, que pretendia discutir esse fenômeno dentro e fora da instituição. As fotos estiveram presentes em espaços acadêmicos e outros, sempre causando comoção, mas acima de tudo impacto, o que levava a mim e Solange, psiquiatra que desenvolvia o projeto juntamente comigo, a pensar na relação de todos nós com este objeto, o corpo. Ao ver as fotos as pessoas sentiam-se próximas ou ainda mais distantes da realidade que as inspirou? O que as fotos provocavam? Horror? Alívio? Ou ambos?

   A exposição de fotos do referido projeto era acompanhada de uma esquete de apenas cinco minutos feita pelos alunos de artes cênicas. Além disso, em parceria com as instituições que recebiam o projeto, debates eram organizados com enfoques diferenciados. Os resultados foram bastante satisfatórios, mas após três anos de existência sentíamos a necessidade de ampliar o debate junto as famílias dos adolescentes, nos aproximarmos do ponto de vista de quem vive a mesma realidade. Nesta oportunidade, embora o debate tenha sido interessante, foi limitado pelo número pequeno de participantes, pois os familiares não tinham dinheiro para o transporte. Este é um fator determinante em qualquer iniciativa de trabalho com os familiares dos adolescentes infratores, e ao mesmo tempo um reforço na cultura assistencialista, uma espécie de aprisionamento a que estão submetidos  todos , usuários dos serviços e profissionais envolvidos.

   O projeto neste formato esgotava-se, mas as marcas ainda se destacavam como objeto inquietante num território imenso, o corpo.



                                                                                                                                                           

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