quinta-feira, 30 de junho de 2016





Cartaz do evento ocorrido na UERJ, organizado em conjunto com o Pró-Adolescente da mesma instituição, e a equipe do Projeto OCORPO.


CORPO: tudo que tem extensão e forma.




     Quando olhamos um corpo adolescente, o quê percebemos? Um corpo em clara transformação acentuada.  Ao marcar ou ter o próprio corpo marcado com uma inscrição de comando criminoso, o adolescente tem conferido ao seu corpo o sentido de um pertencimento. Qual é a extensão deste? Quando um corpo é circunscrito a uma marca que o acompanhará por toda a vida, inevitavelmente estará atrelado ao seu valor simbólico. A marca poderá até mesmo representá-lo antes de qualquer outro aspecto que ele apresente de sua individualidade, e neste sentido a reduz, enormemente, como sujeito. Toda a carga simbólica de uma marca de comando criminoso num corpo adolescente é capaz de impedir qualquer possibilidade de expansão desse mesmo jovem, uma vez que, inevitavelmente, atrairá identificações e rejeições imediatas. Muito facilmente, ele mesmo não se reconhecerá mais sem a sua presença, tornando definitivo, um pertencimento às vezes circunstancial.

     A inscrição de um comando gravada na pele estende por sua vez, potencialmente, o poder da organização a que pertence, na medida que alarga seu território através dos corpos que a carregam. Extensão e forma multiplicados.

     Ainda que o adolescente converta-se num outdoor ambulante, chamando para si opositores e a força policial, a necessidade de fazer parte de algo relevante é maior. Trata-se da relevância que o tráfico de drogas adquiriu junto ao imaginário de jovens. O tráfico manifesta seu poder através de armamento, do acesso a bens de consumo, do poder como intimidação, o que atrai sexo e admiração ancorada no medo. Esses valores são difundidos sistematicamente por uma sociedade onde a formação intelectual perdeu seu status, e o consumo, a vaidade e o imediatismo alcançaram posições estratosféricas. O tráfico de drogas, e todas as práticas relacionadas a ele, são a expressão grotesca desses valores que estão na ordem do dia. Parte da extensão e forma do caráter de uma nova sociedade.

    A relação existente entre o imaginário e a prática concreta ligada ao tráfico de drogas representa a meu ver, o maior dano causado a gerações sucessivas, abandonadas pelo Estado e muitas vezes, por suas famílias. Os adolesentes que se encontram cumprindo medidas socioeducativas no Sistema de Atendimento representam apenas àqueles que foram pegos em flagrante, não o contingente de jovens que vivem o dia-a-dia das chamadas comunidades, que estão submetidos ao poder e a atração pelo crime, fazendo ou não parte de comandos. A população dessas localidades é refém, literalmente, mas também engrossa o caldo do descaso oficial, na medida que estabelece uma relação dúbia com o opressor. Ora o traficante é o mal que os atinge, ora é o benfeitor de todos os desvalidos. Um jogo complexo de relações se estabelece, e se fortalece no silêncio interno e externo às comunidades. Ignoramos as regras ou a ausência das mesmas nos confunde?

    Na tentativa de apreender esses corpos, não podemos destacá-los sem que o espaço que ocupam e pelo qual se movimentam, seja reconhecido. Os limites dos becos e vielas, o ar que circula pouco e de forma interrompida e os espaços exíguos criam uma variedade de interdições, que marcam esses corpos. Essas impressões nos chamam a atenção? Ao pensar a configuração desses corpos, tais dados fazem parte dos retratos que traçamos ou que por eles são traçados?  Há uma naturalização da falta, uma banalização das necessidades que esses corpos têm como quaisquer outros.




SARTRE JOVEM, EU, NEM TANTO



Estava esperando o nosso advogado, quando resolvi entrar

em uma banca de jornal próxima ao Fórum do Rio de

Janeiro.

Quase chovia, o tempo esfriava, ele que é bom, nada.

Mas por conta disso, fiz uma excelente descoberta: Sartre

em sua juventude. Antes do existencialismo, Pós-Guerra,

enfim outro Sartre, ou ainda parte do que seria mais conhecido

depois, só que com mais frescor, na minha modestíssima

opinião.

Nunca tive predileção por Sartre, filosoficamente falando,

muito influenciada por um professor que tive, que o achava

um pensador , digamos, menor.

Mas agora, longe dos dezenove anos, com precisamente

52, descubro que gosto, sim, de Sartre. Não sei se o velho,

mas o jovem, com certeza.

Trata-se do livro “ A Imaginação “, e aí, tudo recomeça em

termos de meu projeto de fazer um livro ou catálogo, sobre

esta experiência dividida com vocês.

“ É preciso fazer a psicologia tradicional entender que suas

imagens com arestas vivas não constituem senão a mínima

parte de uma consciência concreta e viva. Dizer que a

consciência contém apenas esse tipo de imagens equivale

a dizer que um rio contém apenas baldes d’água ou outros

volumes contidos em seus recipientes, copos, litros ou

tonéis. “ ( pág. 75 – Edição LPM - Pocket - 2013 )


A imaginação atravessa a questão abordada neste espaço

de forma decisiva.

Muitas vezes, o envolvimento desses adolescentes se dá

em seus imaginários, o que não deixa de ser concreto,

palpável, mas ainda assim não tem realidade no sentido

imediato do termo.

Ao ler este pequeno e excelente livro, questões como esta,

retornaram com força e retomei a escrita.

CORPO E IMAGINAÇÃO, neste caso, andam

indissociavelmente juntos. Lembremos-nos que se trata

de jovens, com uma vida emocional intensa, profundas

transformações, hormônios em polvorosa, solidão.

Não esqueçamos o quanto fomos inseguros neste período

de nossas vidas, o quanto ansiamos por partilhar, o quanto

desejamos ser aceitos.

A adolescência é um período em que tudo de nós está

em jogo, nossos valores, estética, saúde, vícios e manias,

hábitos e atitudes, moral, afeto, simpatias ou não,

identificações e finalmente, nossa poderosa imaginação.

Dela também dependerá os sonhos que sonharmos neste

período.

Dela dependerá também nossa saúde mental, nosso

humor, nossa resiliência que se constrói.

A imaginação nos constitui e somos constituídos por ela.

A imaginação é tudo que não cabe no que chamam de real,

ou ainda, tudo que se transborda deste real.

Ela nos salva, nos restitui a esperança.

Ela pode nos tornar grandes ou aniquilar-nos, antes que

qualquer um o faça ou uma situação.

Daí sua fundamental presença.

Quando uma criança não imagina, dificilmente cria.

Quando uma criança não imaginou ou sonhou pouco, há

grandes chances de não ter fé em si mesma, porque não

foi capaz de se superar internamente, de criar campos de

força, de travar guerras silenciosas, mas muito danosas,

que podemos travar conosco em qualquer tempo.

Ao ler este Sartre jovem, também eu, rejuvenesci, ganhei

frescor para a escrita.

Não é nada extenso em termos de continuidade, mas a

meu ver, fundamental.

Sartre tem uma honestidade que admiro muitíssimo, ao

escrever.

Tem verdade e compromisso, qualidades raras dentro e

fora da literatura, de qualquer tempo ou estilo.

As máscaras persistem em todos e em tudo que recobre o

real.

Falar de corpo é falar também de máscaras, invólucros,

recipientes, como ele diz na citação feita acima.

As máscaras alimentam o real e a ficção, estão em toda

parte, colam-se aos corpos, determinam muitas vezes,

suas existências.

A imaginação produz máscaras muito poderosas, e às

vezes, ainda que queiram quem as portam, é difícil e

trabalhoso, livrar-se delas.

Os adolescentes em questão aqui, vivem este dilema.

Alguns, não poucos, querem mudar, querem ser vistos

de outra forma, mas o estigma/máscara não permite,

até que eles mesmos se convencem que é impossível,

e permanecem com as máscaras com as quais já estão

acostumados.

A sociedade, o chamado “entorno “ (decididamente, não

gosto dessa palavra ) faz sua parte muito bem.

Trata de rotular de forma definitiva, desacreditar.

Investe na perda da fé, na fofoca, no trocadilho e piada.

É triste, mas é. É pouco, mas continua sendo. É fatal, mas

ninguém liga. Então é possível, muito possível que a morte

venha, mas ela não determina mais nada, não modifica,

não transforma ou redime.

A morte de adolescentes infratores é quase um suspiro

para os que ficam, menos um, menos um sofredor para

os crédulos, menos um bandidinho para o ódio armado.

Menos imaginação, mais máscara.

Encerro por aqui, sabendo é claro, que o tema não se

esgota na publicação simples de um catálogo, nem

tampouco na execução de um projeto. O tema nos

atravessa e continuará atravessando-nos, diariamente.

a cada sinal fechado e nosso medo de assaltos, a cada

notícia envolvendo menores de idade veiculada pelos

meios de comunicação, a cada susto.

Falar de adolescentes infratores não é lá muito agradável,

palatável. Há sempre uma atmosfera de incômodo no

ambiente. Há sempre medo e/ou culpa. Receio de ser

injusto. Receio de ser justo. Receio.

Estou quase me aposentando, e começo a repensar minha

trajetória de contato de dezenove anos com esses jovens.

Não foi tranquilo, mas não por eles, com os quais interagi

de forma fluida. Mas as instituições, sempre elas, com

suas doses maiores ou menores de perversidade, seu

abandono, seu descaso.

Mas também aprendi ao longo deste tempo, que é possível,

e vi processos muito interessantes, vi meninos felizes,

confiantes na mudança. E nisso o perfume é fantástico,

porque ele aumenta nossa auto-estima, injeta prazer nos

nossos corpos, no ar.

O perfume foi uma descoberta pedagógica, para mim,

também me trouxe leveza, esperança, prazer de estar em

sala de aula.

Na verdade, eu e ele nos apoiamos uns nos outros, nos

enchemos de algo que ainda não conseguiram destruir: a

relação professor/aluno.

Quando esta consegue acontecer, conhecemos o melhor

dos mundos, o melhor da vida.

Junho / julho 2014