domingo, 3 de julho de 2016

COMPLEMENTANDO A PARTE DOS TEXTOS DA AUTORA DO CATÁLOGO




“O EU PROFUNDO” *, O OUTRO, O NÓS


Todas as vezes em que temos o ímpeto de fazer , realizar algo, inevitavelmente, pensamos no Outro.
Esse Outro que é nós, e esse Outro, outro mesmo, fora do que consideramos ser.
Existe uma preocupação em ser compreendido, mais do que isso, aceito.
Precisamos assim como os jovens abordados neste catálogo, pertencer. 
Pertencer a um grupo, a uma geração, a um conjunto profissional. 
Precisamos pertencer a um povo,  um bairro,  uma família.
Pertencer, mais que humano, é animal.

Pensei que o capítulo anterior fosse o último, mas percebo que não.
Há mais o que colocar, compartilhar.
Há a necessidade de ser mais completa, mais compreensível, e por que não, mais aceita?
Este aspecto também ajuda a compreender os adolescentes acusados de cometimento de ato infracional (nome compridíssimo, mas o mais justo, me parece). Ajuda no processo de empatia, aceitação. Ajuda na aproximação da questão.

Tenho escrito muito nos últimos tempos, talvez porque esteja envelhecendo.
Tenho expressado bastante as minhas opiniões, nos mais diversos espaços, e ouço de alguns amigos que me exponho muito. Mas sempre foi assim. e embora tenha tentado em alguns momentos pontuais,  não conheço outro jeito. Já melhorei, amadureci, é claro, mas compreendi e aceitei a minha natureza.

Se os adolescentes internados não compreenderem os motivos pelos quais estão ali, naquele momento, nada terá acontecido.
Se os adolescentes não aceitarem o que lhes vai em suas vidas, nada terá acontecido.
Infelizmente, e já o disse aqui, é o que mais acontece nas instituições de recuperação e reeducação. Uma “esquizofrenia geral”, endossada por nós também, operadores do Sistema.

Não posso repetir a feição do objeto que critico, não posso corroborar com o politicamente, educadamente aceitável. E acima de tudo, não desejo.

Gostaria de indicar a leitura de outro “radical”, acusado de ser de direita, um intelectual que respeito muitíssimo, Maingnohli, em seu livro “ Uma Gota de Sangue “. O livro em questão está longe de ser bem aceito pela crítica e público, apesar do status que seu autor possui como profissional atuante que é. E talvez, justamente por isso, eu acredite que esta leitura seja absolutamente essencial, principalmente em se tratando do Brasil atual, seus estereótipos sociais, seu atraso flagrante nos últimos anos de governo com características populistas.

Preciso encerrar de fato, e o farei.

Como todos, sinto-me feliz ao me sentir compreendida e aceita. Mas aprendi ao longo da vida que nem sempre é possível e desejável.
Como todos, gostaria que minha atuação profissional como professora de Artes Cênicas da Secretaria de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, fosse respeitada e valorizada, mas nem sempre foi possível ou desejável.
Prefiro a inquietude dos felizes, ainda que mal compreendidos, ou aceitos pelo senso comum tão prudente, sempre.

Desejo que este catálogo tenha lhe trazido algumas questões legítimas para se pensar, refletir, reformular.
Quero, anseio por melhorias estruturais no atendimento ao adolescente em conflito consigo, não com a lei. Já que a lei é limitada, capenga, e aplicada a poucos.
Tenho esperança no porvir, acredito que, realmente, a atuação de cada um de nós faça diferença para o coletivo.
O nós, para os outros de nós, a partir de nós.



Julho / 2014


* “ O EU PROFUNDO E OS OUTROS EUS” de Fernando Pessoa


FOTOS, PROGRAMAS DE EVENTOS



Programa do evento realizado em parceria com o PRÓ-ADOLESCENTE da UERJ.



Jornal produzido por um grupo da UERJ




As marcas nos corpos adolescentes do Sistema não são apenas produzidas pelos próprios, diretamente. O jovem da foto mostra a enorme cicatriz que tem em sua cabeça, fruto de uma coronhada ao ser apreendido pela Polícia do Rio de Janeiro/PMERJ. Foi apreendido pelo envolvimento com o tráfico de drogas da área em que morava. Permitiu que eu fizesse o registro fotográfico, mas sentia-se incomodado em relação à marca, era um jovem, arredito, silencioso, mas acessível e crítico, apesar de poucos amigos, ali.




Segundo este adolescente, o número quinze refere-se ao número da facção na área. Seriam as áreas pertencente a este Comando (Vermelho), na cidade do Rio de Janeiro.



Evento do Projeto OCORPO no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ  -  Praia Vermelha  - com a participação de acadêmicos desta Instituição e equipe do Projeto.








"PAZ, JUSTIÇA E LIBERDADE", slogan do Comando Vermelho. Os adolescentes fotografados desconhecem a origem da frase que inscrevem em seus corpos, só sabem que é o "lema do Comando".




Exemplo de tentativa de sair deste universo marcado pela relação com o crime organizado. Este jovem fazia uma tatuagem de pássaro, quando foi apreendido. Disse a mim, que quando saísse, iria terminá-la e nunca mais voltaria para aquele lugar. Intimamente, torcíamos para que estivesse certo, embora a reincidência fosse acentuada nos últimos anos.





Último evento organizado em instituições, com exposição de fotos e debate aberto.
Instituição voltada para as questões femininas, convidamos as lideranças dos movimentos de mães e pais de adolescentes infratores, representantes de mais de uma associação, inclusive com abordagens diferentes entre si. Como já foi dito, a adesão foi pequena, em grande parte, pela falta de recursos materiais das mulheres, para estarem presentes e discutir a estreita relação existente entre adolescentes do sexo masculino com suas mães, avós, madrinhas, vizinhas, companheiras, namoradas, filhas, etc.

  
A ex-delegada, ex-secretária de segurança e parlamentar Marta Rocha, presidia a referida instituição à época, início dos anos 2000. Ela teve a sensibilidade e cuidado de manter o evento, contrariando uma "sutil" recomendação da direção do Degase, também à época, do militar reformado, Sérgio Novo. Este digníssimo senhor, tentou sem sucesso, punir-me com um processo administrativo, alegando inclusive, a um juiz especializado em Infância e Juventude, que os recursos materiais do Projeto OCORPO não seriam nossos, mas sim do Degase, o que se provou, mas o fato desagradável permaneceu em nossa memória mental e corporal: o medo e a necessidade de ultrapassá-lo.