quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Reginal e Carlinhos, agentes educacionais em exercício, oriundos de uma primeira concepçaão da referida função, concurso de 1994, logo após a criação do DEGASE


TEXTOS DOS COLABORADORES 

PROJETO “OCORPO”  -  2001 / 2016

Versão catálogo - a primeira a sair.
 



             A flor da marca: escarificação e busca identitária no adolescente



                                                               Palmyr Virginio Jr.

 – Pédopsiquiatra, formado pela universidade Paris V; mestrado em psicologia pela universidade Paris VII; terapeuta familiar; exerce atividades profissionais na França (Thonon-le-bains) e na Suíça (Genebra).



Cada um traz consigo suas marcas. Visíveis ou invisíveis, exuberantes ou discretas, escolhidas ou impostas, queridas ou repudiadas, nenhuma delas desaparece definitivamente, da flor ou das profundezas da pele.

Essas marcas são quase sempre realizadas voluntariamente, intimamente. Além da aparência, tem-se sempre algo a dizer sobre elas, histórias que as antecedem e que as acompanham, relações e contextos que as valorizam e fidelizam.

Na verdade, essas marcas são o testemunho encarnado da identidade, da história e dos vínculos sociais do sujeito. Sobretudo, mudar a superfície do corpo, essa instância visível, essa fronteira do dentro e do fora, do eu e do outro, significa se inscrever dentro de uma outra relação com o mundo, significa simbolicamente "mudar de vida".

Fixadas de forma indelével, as marcas existem enquanto assinatura, uma rubrica definitiva e sempre atualizada, colocada em evidência através do olhar do outro.

Tatuadas, escarificadas, laceradas, queimadas, essas marcas representam uma forma de mapeamento da trajetória de vida do sujeito, de seus laços afetivos e de sua "appartenance
 – A tradução, fica entre "pertencimento" ou "pertença" esta última palavra é definida no dicionário do Houaiss como: "domínio, qualquer coisa que, por destinação de lei ou destinação natural, encontra-se ligada ao uso de outra ou como acessório, apêndice ou complemento; privilégio, atribuição, prerrogativa.""

No caso das escarificações do adolescente, vários são os fatores em jogo mas numa grande proporção de casos, observamos a presença de angústias existencias e referências identitárias de grande impacto psicossocial que, muitas vezes, não conseguem ser elaboradas de forma satisfatória.

Certos estudos voltados às representações subjetivas e às repercussões sociais de tais gestos (Pommereau – 1997) mostram que a ferida da escarificação vem se sobrepor e até mesmo tomar o lugar de uma outra, muito mais profunda e ameaçadora.

Contudo, é importante lembrar que nem todo gesto de marcação do corpo de um adolescente se inscreve, necessariamente, no campo da psicopatologia. No entanto, na clínica pedopsiquiátrica, devemos sempre verificar a possibilidade de estarmos diante de sinais reveladores de um sofrimento psíquico grave, não identificado pelo adolescente.

A fase da adolescência é uma fase de grandes modificações e incertezas. Podemos citar como principais, tanto as transformações do corpo, quanto as modificações das relações com os outros do mesmo sexo – e sobretudo do sexo oposto -, dentro ou fora da família, adultos ou jovens, grupos ou instituições.

Marion HAZA (2002) considera que, situada entre o psíquico e o fisiológico, a marcação do corpo (piercing ou tatuagem) em adolescentes escolarizados na França entre 15 e 25 anos, fora de todo processo de marginalização social, é antes de tudo um sinal estruturante e facilitador servindo como base psíquica para a construção da identidade.

Nessa população a noção de "dor" engendrada pela gravação ou pela perfuração da pele, emerge com uma força particular, não como um fator estimulante para a realização do gesto, mas como uma experiência iniciática de ultrapassar seus próprios medos e limites.

Suportar essa dor significaria, "provar algo para si mesmo e também para outros".

Essa pesquisa mostrou que se todos os que marcam seus corpos não estão, em princípio, buscando integrar ou pertencer diretamente a um grupo, muitos reconhecem que esses sinais podem se tornar uma "marca de reconhecimento", servindo a se "referenciar", a se "aproximar" e sobretudo a se "identificar" dentro de um grupo.

A dimensão estética ocupa igualmente um lugar importante no projeto de marcação dos corpos, na medida em que é frequentemente buscado um "embelezamento", uma "valorização" e até mesmo uma dimensão de "obra de arte única" sobre a pele.

Um "exibicionismo discreto" se organiza em torno do jogo de mostrar e não mostrar o desenho ou jóia.

O que fica claro na pesquisa é que, analisando mais profundamente o perfil dos jovens, o principal fator motivacional, além da busca e da afirmação da sua identidade é a originalidade e a tentativa de "sair do ordinário".

Já no caso das auto-escarificações, isto é, arranhões ou pequenas incisões provocadas voluntária e secretamente pelo adolescente, o que podemos constatar é a presença importante de angústia e outros sintomas relacionados ao humor e a auto-estima.



Através desse gesto e da ferida física produzida, o sujeito visa, paradoxalmente, aliviar uma outra ferida, esta insuportável, decorrente da angústia podendo inclusive conduzi-lo a cometer atos de suicídio.

"Couper court à la détresse", em português, "cortar a aflição pela raiz", é a expressão utilizada pelo antropólogo francês David Le Breton (2009) para falar dos sofrimentos "controlados" que certos jovens inflingem aos seus envelopes corporais diante dessa angústia, na medida em que ela é difusa e sem limites.

Nesses casos de escarificação, no momento da passagem ao ato, o corpo se transforma num testemunho vivo, sobrevivente de uma forma dramática de morte iminente contra a qual luta o adolescente.

A presença e até mesmo a contemplação das feridas funcionam como âncoras que evitam que o sujeito parta à deriva, terminando por aliviá-lo, mesmo que momentaneamente.

Em seguida, as cicatrizes tornam-se traços da memória existencial do adolescente, juntamente com o sentido que ele atribui.

Tanto no caso das tatuagens quanto no caso das escarificações, esse sujeito pode ficar indefinidamente subjulgado, seja por uma "Marca de valor" seja por um "Sinal infamante", estigma designativo que pode conduzí-lo à diferentes situações, das mais acolhedoras às mais excludentes.











Bibliografia :



Marion HAZA, "A la fleur de peau ou le marquage du corps à l'adolescence", Recherches & éducations, n°2/ 3e trimestre 2002.

David LE BRETON, "Signes d'identité. Tatouages, piercings et outres marques corporelles", Paris Métaillé, 2002.

Pommereau, X., "Quand l'adolescent va mal", JC Lattès, 1997.

Pagès-Delon, M, Le corps et ses apparences. L'envers du look. Editions l'Harmattan, 1989.





Para mim, tão importante quanto o fenômeno “marcas” a ser discutido aqui  é o contexto em que se insere o mesmo.

     Não lembro do momento exato em que Isabella me chamou para compartilhar com ela o projeto OCORPO, mas sim, que era mais uma tentativa de não ficarmos imobilizadas diante das dificuldades encontradas em nossa práxis.

     Entramos por concurso em 1994 e já estávamos em 2001.

     Convivíamos com toda a sorte de limitações e questões : desde instalações inadequadas a falta de um regimento interno que regulasse as relações, falta de projeto institucional, atos de negligência, violência, despreparo, sobejamente conhecidos e várias vezes expostos na mídia. Nosso lugar de trabalho contrariava tudo que havíamos estudado para abordar a adolescência e muito mais a adolescência infratora de Foucault a Paulo Freire. 
   
     Que tal, então, utilizarmos a arte como ferramenta para nos aproximarmos do sintoma “marcas”? Que tal buscarmos o olhar externo para compartilhar esta experiência?

     Daí OCORPO ser estruturado como um evento em que haveria: uma peça teatral , dando-nos a oportunidade de implicá-los no processo; o registro e exposição fotográfica das marcas, tendo em vista a discussão das facções, uma mesa em que convidados nos trariam visões diferenciadas e mais distanciadas do problema. Muitas foram às contribuições que recebemos, algumas delas serão aqui apresentadas.

     O que leva um jovem a sofrer a dor do objeto perfuro-cortante para colocar símbolos de comandos? Ou suásticas? Ou queimar-se fazendo surf ferroviário? Ou tatuar-se com um “anjinho” armado?

     Sabemos que a adolescência é o momento da vida em que abundam as incertezas. As transformações físicas, fisiológicas, psíquicas trazem desconforto e insegurança. Esses sentimentos, ultrapassados com certa dificuldade pela maioria, vai encontrar terreno fértil naqueles que por razões várias sucumbem ao despreparo da família, escola, sociedade. Tornam-se a marca do fracasso de muitos. A marca como sintoma da não inscrição no desejo do Outro.  À rebeldia normal da idade, que permite a uma geração ultrapassar a outra rumo à maturidade, levando a contestação de valores, transforma-se em revolta surda contra qualquer figura de poder. Aprenderam e apreenderam que não existem heróis e bandidos. Estar em sociedade é um fenômeno complexo. No lado daqueles que são tidos como “heróis” encontramos o político e o policial corruptos, a sociedade é injusta e penaliza os mais pobres. As escolas não têm projeto para esses rebeldes, que perturbam a ordem e atrapalham o bom andamento e o cumprimento da norma estabelecida. São expulsos. Muitos analfabetos funcionais. Tornam-se, com frequência, usuários de drogas. Drogas que muitas vezes são utilizadas como medicamento para abrandar diferentes sintomas: ansiedade, depressão, euforia fruto de transtornos mentais não diagnosticadas que antecedem e agravam seus quadros. O ato infracional se inscreve nessa dinâmica de dor e sofrimento.

     Empurrados pelo que encontram na vida, aliam-se àqueles que para ele são figuras míticas e ostentam os valores reconhecidos por esta mesma sociedade: carros, dinheiro, belas mulheres. Querem o que todos querem... Afinal não é a marca da sociedade atual a acumulação de dinheiro e bens como uma finalidade em si?

     No corpo a fidelidade aos que o acolheram, deram sentido a sua vida.

     Cedo devolvem o que receberam: descaso pelo outro, por seus bens, por suas vidas.

     Sabemos que a demonização das drogas e dos drogados, compreensível pela violência do tráfico, agrava a situação destes adolescentes.

     O adolescente autor de ato infracional é visto como não-eu, não existe empatia, nem da sociedade, nem de alguns de seus cuidadores. Aos erros anteriores somam-se as das instituições responsáveis por sua cautela, pela determinação de seu destino. E a reincidência é a norma.

     No jogo de empurra-empurra que se estabelece, ninguém tem culpa pelo insucesso. As relações no sistema, como relações de poder em que na base da pirâmide encontra-se o educando, alvo de toda a desilusão da sociedade, repetem a lógica perversa do descompromisso e do descaso. É aquela história do um que desconta no outro e assim sucessivamente...

     Quem grita, quem bate, quem deixa de atender com urbanidade, por que o faz?

     Todos estão submetidos à mesma penúria.

     O que pode romper essas barreiras?

     A crença de que é possível uma recuperação?

     Uma polidez maior que seja traduzida através de exemplos?

     Regras claras, simples, compartilhadas num regimento interno?

     A certeza de sanções para quem descumprir as regras?

     A participação dos familiares e amigos?

     A participação das instituições que deveriam tomar conta cumprindo o seu papel constitucional?

     Muitas são as indagações e longe estamos das respostas que nos satisfaçam. A “sideração” que se expressa na perplexidade e na impotência pode ser sentida em alguns lugares por onde o projeto passou.

     O projeto de lei, o SINASE (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), aprovada pelo CONANDA (Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente) que aborda de forma mais abragente a questão da adolescência autora de ato infracional talvez aponte uma luz no final do túnel.
O corpo ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é

um espaço que possui desdobramentos: a pele, as

ondas sonoras, a aura da perspiração. Esse corpo físico,

material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é

esta coisa que os outros veem, sondam em seu desejo.

Ele desgasta-se com o tempo. É um objeto de ciência. Os

cientistas o manuseiam e o dissecam: medem sua massa,

sua densidade, seu volume, sua temperatura: analisam

seu movimento; transformam-no. Mas o corpo dos

anatomistas ou dos fisiologistas é radicalmente diferente

do corpo do prazer e da dor.

Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo.

Essa presença constante conosco mesmos dá base a

uma das interrogações fundamentais dos ideólogos. O

sujeito- o eu existe- existe somente encarnado: nenhuma

distância pode se constituir entre nós e nosso corpo.

Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no- ou

pelo- sono, fadiga, na possessão, no êxtase, na morte.

Ele será futuramente um cadáver. Por tudo isso, a

tradição filosófica antiga o entende como prisão da alma,

como um túmulo. Falar da história do corpo equivale

a olhar tudo o que cerca o indivíduo e o contextualiza.

Estamos, definitivamente, diante de um tema de infinitas

proporções. Na história do corpo revela-se o universo

cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da

sociedade. A história do corpo é a história da própria vida

humana.

História do Corpo.

Direção Alain Corbin, Jean – Jacques Courtine, Georges

Vigarello.

Editora Vozes, 2009


.

SOLANGE RODRIGUES, PSIQUIATRA POR ANOS, DA MESMA INSTITUIÇÃO DO DEGASE, ONDE O PROJETO “OCORPO” NASCEU E DESENVOLVEU-SE.

ATUALMENTE, SOLANGE ESTÁ DISTANTE DA INSTITUIÇÃO, POIS APOSENTOU-SE. EU PERMANEÇO NELA, MAS NÃO MAIS EM UNIDADES DE INTERNAÇÃO. PASSEI PELA UNIDADE QUE É A PORTA DE ENTRADA NO SISTEMA, EM SEGUIDA POR ANOS, TRABALHEI NO CENTRO PROFISSIONALIZANTE, E ATUALMENTE ESTOU EM UMA UNIDADE DE SEMI-LIBERDADE.




FICA, QUERIDOS, FALTANDO COMPLEMENTAR COM O TEXTO DE CARLOS EDUARDO, POIS DESEJA FAZER MODIFICAÇÕES E /OU ACRÉSCIMOS.


EM BREVE, OBRIGADA





certo, si, finalmente, ufa !!!!


TEXTOS DE COLABORADORES DO PROJETO "OCORPO', AO LONGO DE ANOS

O corpo ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é

um espaço que possui desdobramentos: a pele, as

ondas sonoras, a aura da perspiração. Esse corpo físico,

material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é

esta coisa que os outros veem, sondam em seu desejo.

Ele desgasta-se com o tempo. É um objeto de ciência. Os

cientistas o manuseiam e o dissecam: medem sua massa,

sua densidade, seu volume, sua temperatura: analisam

seu movimento; transformam-no. Mas o corpo dos

anatomistas ou dos fisiologistas é radicalmente diferente

do corpo do prazer e da dor.

Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo.

Essa presença constante conosco mesmos dá base a

uma das interrogações fundamentais dos ideólogos. O

sujeito- o eu existe- existe somente encarnado: nenhuma

distância pode se constituir entre nós e nosso corpo.

Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no- ou

pelo- sono, fadiga, na possessão, no êxtase, na morte.

Ele será futuramente um cadáver. Por tudo isso, a

tradição filosófica antiga o entende como prisão da alma,

como um túmulo. Falar da história do corpo equivale

a olhar tudo o que cerca o indivíduo e o contextualiza.

Estamos, definitivamente, diante de um tema de infinita

proporções. Na história do corpo revela-se o universo

cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da

sociedade. A história do corpo é a história da própria vida

humana.

História do Corpo.

Direção Alain Corbin, Jean – Jacques Courtine, Georges

Vigarello.

Editora Vozes, 2009.
 
TEXTOS DOS COLABORADORES 

PROJETO “OCORPO”  -  2001 / 2016

Versão catálogo - a primeira a sair.
 



             A flor da marca: escarificação e busca identitária no adolescente



                                                               Palmyr Virginio Jr.

 – Pédopsiquiatra, formado pela universidade Paris V; mestrado em psicologia pela universidade Paris VII; terapeuta familiar; exerce atividades profissionais na França (Thonon-le-bains) e na Suíça (Genebra).



Cada um traz consigo suas marcas. Visíveis ou invisíveis, exuberantes ou discretas, escolhidas ou impostas, queridas ou repudiadas, nenhuma delas desaparece definitivamente, da flor ou das profundezas da pele.

Essas marcas são quase sempre realizadas voluntariamente, intimamente. Além da aparência, tem-se sempre algo a dizer sobre elas, histórias que as antecedem e que as acompanham, relações e contextos que as valorizam e fidelizam.

Na verdade, essas marcas são o testemunho encarnado da identidade, da história e dos vínculos sociais do sujeito. Sobretudo, mudar a superfície do corpo, essa instância visível, essa fronteira do dentro e do fora, do eu e do outro, significa se inscrever dentro de uma outra relação com o mundo, significa simbolicamente "mudar de vida".

Fixadas de forma indelével, as marcas existem enquanto assinatura, uma rubrica definitiva e sempre atualizada, colocada em evidência através do olhar do outro.

Tatuadas, escarificadas, laceradas, queimadas, essas marcas representam uma forma de mapeamento da trajetória de vida do sujeito, de seus laços afetivos e de sua "appartenance
 – A tradução, fica entre "pertencimento" ou "pertença" esta última palavra é definida no dicionário do Houaiss como: "domínio, qualquer coisa que, por destinação de lei ou destinação natural, encontra-se ligada ao uso de outra ou como acessório, apêndice ou complemento; privilégio, atribuição, prerrogativa.""

No caso das escarificações do adolescente, vários são os fatores em jogo mas numa grande proporção de casos, observamos a presença de angústias existencias e referências identitárias de grande impacto psicossocial que, muitas vezes, não conseguem ser elaboradas de forma satisfatória.

Certos estudos voltados às representações subjetivas e às repercussões sociais de tais gestos (Pommereau – 1997) mostram que a ferida da escarificação vem se sobrepor e até mesmo tomar o lugar de uma outra, muito mais profunda e ameaçadora.

Contudo, é importante lembrar que nem todo gesto de marcação do corpo de um adolescente se inscreve, necessariamente, no campo da psicopatologia. No entanto, na clínica pedopsiquiátrica, devemos sempre verificar a possibilidade de estarmos diante de sinais reveladores de um sofrimento psíquico grave, não identificado pelo adolescente.

A fase da adolescência é uma fase de grandes modificações e incertezas. Podemos citar como principais, tanto as transformações do corpo, quanto as modificações das relações com os outros do mesmo sexo – e sobretudo do sexo oposto -, dentro ou fora da família, adultos ou jovens, grupos ou instituições.

Marion HAZA (2002) considera que, situada entre o psíquico e o fisiológico, a marcação do corpo (piercing ou tatuagem) em adolescentes escolarizados na França entre 15 e 25 anos, fora de todo processo de marginalização social, é antes de tudo um sinal estruturante e facilitador servindo como base psíquica para a construção da identidade.

Nessa população a noção de "dor" engendrada pela gravação ou pela perfuração da pele, emerge com uma força particular, não como um fator estimulante para a realização do gesto, mas como uma experiência iniciática de ultrapassar seus próprios medos e limites.

Suportar essa dor significaria, "provar algo para si mesmo e também para outros".

Essa pesquisa mostrou que se todos os que marcam seus corpos não estão, em princípio, buscando integrar ou pertencer diretamente a um grupo, muitos reconhecem que esses sinais podem se tornar uma "marca de reconhecimento", servindo a se "referenciar", a se "aproximar" e sobretudo a se "identificar" dentro de um grupo.

A dimensão estética ocupa igualmente um lugar importante no projeto de marcação dos corpos, na medida em que é frequentemente buscado um "embelezamento", uma "valorização" e até mesmo uma dimensão de "obra de arte única" sobre a pele.

Um "exibicionismo discreto" se organiza em torno do jogo de mostrar e não mostrar o desenho ou jóia.

O que fica claro na pesquisa é que, analisando mais profundamente o perfil dos jovens, o principal fator motivacional, além da busca e da afirmação da sua identidade é a originalidade e a tentativa de "sair do ordinário".

Já no caso das auto-escarificações, isto é, arranhões ou pequenas incisões provocadas voluntária e secretamente pelo adolescente, o que podemos constatar é a presença importante de angústia e outros sintomas relacionados ao humor e a auto-estima.



Através desse gesto e da ferida física produzida, o sujeito visa, paradoxalmente, aliviar uma outra ferida, esta insuportável, decorrente da angústia podendo inclusive conduzi-lo a cometer atos de suicídio.

"Couper court à la détresse", em português, "cortar a aflição pela raiz", é a expressão utilizada pelo antropólogo francês David Le Breton (2009) para falar dos sofrimentos "controlados" que certos jovens inflingem aos seus envelopes corporais diante dessa angústia, na medida em que ela é difusa e sem limites.

Nesses casos de escarificação, no momento da passagem ao ato, o corpo se transforma num testemunho vivo, sobrevivente de uma forma dramática de morte iminente contra a qual luta o adolescente.

A presença e até mesmo a contemplação das feridas funcionam como âncoras que evitam que o sujeito parta à deriva, terminando por aliviá-lo, mesmo que momentaneamente.

Em seguida, as cicatrizes tornam-se traços da memória existencial do adolescente, juntamente com o sentido que ele atribui.

Tanto no caso das tatuagens quanto no caso das escarificações, esse sujeito pode ficar indefinidamente subjulgado, seja por uma "Marca de valor" seja por um "Sinal infamante", estigma designativo que pode conduzí-lo à diferentes situações, das mais acolhedoras às mais excludentes.











Bibliografia :



Marion HAZA, "A la fleur de peau ou le marquage du corps à l'adolescence", Recherches & éducations, n°2/ 3e trimestre 2002.

David LE BRETON, "Signes d'identité. Tatouages, piercings et outres marques corporelles", Paris Métaillé, 2002.

Pommereau, X., "Quand l'adolescent va mal", JC Lattès, 1997.

Pagès-Delon, M, Le corps et ses apparences. L'envers du look. Editions l'Harmattan, 1989.





Para mim, tão importante quanto o fenômeno “marcas” a ser discutido aqui  é o contexto em que se insere o mesmo.

     Não lembro do momento exato em que Isabella me chamou para compartilhar com ela o projeto OCORPO, mas sim, que era mais uma tentativa de não ficarmos imobilizadas diante das dificuldades encontradas em nossa práxis.

     Entramos por concurso em 1994 e já estávamos em 2001.

     Convivíamos com toda a sorte de limitações e questões : desde instalações inadequadas a falta de um regimento interno que regulasse as relações, falta de projeto institucional, atos de negligência, violência, despreparo, sobejamente conhecidos e várias vezes expostos na mídia. Nosso lugar de trabalho contrariava tudo que havíamos estudado para abordar a adolescência e muito mais a adolescência infratora de Foucault a Paulo Freire. 
   
     Que tal, então, utilizarmos a arte como ferramenta para nos aproximarmos do sintoma “marcas”? Que tal buscarmos o olhar externo para compartilhar esta experiência?

     Daí OCORPO ser estruturado como um evento em que haveria: uma peça teatral , dando-nos a oportunidade de implicá-los no processo; o registro e exposição fotográfica das marcas, tendo em vista a discussão das facções, uma mesa em que convidados nos trariam visões diferenciadas e mais distanciadas do problema. Muitas foram às contribuições que recebemos, algumas delas serão aqui apresentadas.

     O que leva um jovem a sofrer a dor do objeto perfuro-cortante para colocar símbolos de comandos? Ou suásticas? Ou queimar-se fazendo surf ferroviário? Ou tatuar-se com um “anjinho” armado?

     Sabemos que a adolescência é o momento da vida em que abundam as incertezas. As transformações físicas, fisiológicas, psíquicas trazem desconforto e insegurança. Esses sentimentos, ultrapassados com certa dificuldade pela maioria, vai encontrar terreno fértil naqueles que por razões várias sucumbem ao despreparo da família, escola, sociedade. Tornam-se a marca do fracasso de muitos. A marca como sintoma da não inscrição no desejo do Outro.  À rebeldia normal da idade, que permite a uma geração ultrapassar a outra rumo à maturidade, levando a contestação de valores, transforma-se em revolta surda contra qualquer figura de poder. Aprenderam e apreenderam que não existem heróis e bandidos. Estar em sociedade é um fenômeno complexo. No lado daqueles que são tidos como “heróis” encontramos o político e o policial corruptos, a sociedade é injusta e penaliza os mais pobres. As escolas não têm projeto para esses rebeldes, que perturbam a ordem e atrapalham o bom andamento e o cumprimento da norma estabelecida. São expulsos. Muitos analfabetos funcionais. Tornam-se, com frequência, usuários de drogas. Drogas que muitas vezes são utilizadas como medicamento para abrandar diferentes sintomas: ansiedade, depressão, euforia fruto de transtornos mentais não diagnosticadas que antecedem e agravam seus quadros. O ato infracional se inscreve nessa dinâmica de dor e sofrimento.

     Empurrados pelo que encontram na vida, aliam-se àqueles que para ele são figuras míticas e ostentam os valores reconhecidos por esta mesma sociedade: carros, dinheiro, belas mulheres. Querem o que todos querem... Afinal não é a marca da sociedade atual a acumulação de dinheiro e bens como uma finalidade em si?

     No corpo a fidelidade aos que o acolheram, deram sentido a sua vida.

     Cedo devolvem o que receberam: descaso pelo outro, por seus bens, por suas vidas.

     Sabemos que a demonização das drogas e dos drogados, compreensível pela violência do tráfico, agrava a situação destes adolescentes.

     O adolescente autor de ato infracional é visto como não-eu, não existe empatia, nem da sociedade, nem de alguns de seus cuidadores. Aos erros anteriores somam-se as das instituições responsáveis por sua cautela, pela determinação de seu destino. E a reincidência é a norma.

     No jogo de empurra-empurra que se estabelece, ninguém tem culpa pelo insucesso. As relações no sistema, como relações de poder em que na base da pirâmide encontra-se o educando, alvo de toda a desilusão da sociedade, repetem a lógica perversa do descompromisso e do descaso. É aquela história do um que desconta no outro e assim sucessivamente...

     Quem grita, quem bate, quem deixa de atender com urbanidade, por que o faz?

     Todos estão submetidos à mesma penúria.

     O que pode romper essas barreiras?

     A crença de que é possível uma recuperação?

     Uma polidez maior que seja traduzida através de exemplos?

     Regras claras, simples, compartilhadas num regimento interno?

     A certeza de sanções para quem descumprir as regras?

     A participação dos familiares e amigos?

     A participação das instituições que deveriam tomar conta cumprindo o seu papel constitucional?

     Muitas são as indagações e longe estamos das respostas que nos satisfaçam. A “sideração” que se expressa na perplexidade e na impotência pode ser sentida em alguns lugares por onde o projeto passou.

     O projeto de lei, o SINASE (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), aprovada pelo CONANDA (Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente) que aborda de forma mais abragente a questão da adolescência autora de ato infracional talvez aponte uma luz no final do túnel.
O corpo ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é

um espaço que possui desdobramentos: a pele, as

ondas sonoras, a aura da perspiração. Esse corpo físico,

material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é

esta coisa que os outros veem, sondam em seu desejo.

Ele desgasta-se com o tempo. É um objeto de ciência. Os

cientistas o manuseiam e o dissecam: medem sua massa,

sua densidade, seu volume, sua temperatura: analisam

seu movimento; transformam-no. Mas o corpo dos

anatomistas ou dos fisiologistas é radicalmente diferente

do corpo do prazer e da dor.

Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo.

Essa presença constante conosco mesmos dá base a

uma das interrogações fundamentais dos ideólogos. O

sujeito- o eu existe- existe somente encarnado: nenhuma

distância pode se constituir entre nós e nosso corpo.

Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no- ou

pelo- sono, fadiga, na possessão, no êxtase, na morte.

Ele será futuramente um cadáver. Por tudo isso, a

tradição filosófica antiga o entende como prisão da alma,

como um túmulo. Falar da história do corpo equivale

a olhar tudo o que cerca o indivíduo e o contextualiza.

Estamos, definitivamente, diante de um tema de infinitas

proporções. Na história do corpo revela-se o universo

cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da

sociedade. A história do corpo é a história da própria vida

humana.

História do Corpo.

Direção Alain Corbin, Jean – Jacques Courtine, Georges

Vigarello.

Editora Vozes, 2009


.

SOLANGE RODRIGUES, PSIQUIATRA POR ANOS, DA MESMA INSTITUIÇÃO DO DEGASE, ONDE O PROJETO “OCORPO” NASCEU E DESENVOLVEU-SE.

ATUALMENTE, SOLANGE ESTÁ DISTANTE DA INSTITUIÇÃO, POIS APOSENTOU-SE. EU PERMANEÇO NELA, MAS NÃO MAIS EM UNIDADES DE INTERNAÇÃO. PASSEI PELA UNIDADE QUE É A PORTA DE ENTRADA NO SISTEMA, EM SEGUIDA POR ANOS, TRABALHEI NO CENTRO PROFISSIONALIZANTE, E ATUALMENTE ESTOU EM UMA UNIDADE DE SEMI-LIBERDADE.










OS DOIS ÚLTIMOS TEXTOS DE "OCORPO"

CONCLUIREI EM BREVE, PARA QUE POSSA FAZER AJUSTES DE ÚLTIMA HORA.

MAS NÃO DEMORAREI, NO MÁXIMO, ATÉ O FIM DESTA SEMANA.

OBRIGADA PELA COMPREENSÃO.


Isabella

sim, finalmente, encerrando, ou melhor, concluindo a publicação do CATÁLOGO " OCORPO "


TEXTOS DE CARLOS EDUARDO CAMPOS e REGINALDO FAILACCI
E COMPLEMENTO DE SOLANGE RODRIGUES

O corpo ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é

um espaço que possui desdobramentos: a pele, as

ondas sonoras, a aura da perspiração. Esse corpo físico,

material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é

esta coisa que os outros veem, sondam em seu desejo.

Ele desgasta-se com o tempo. É um objeto de ciência. Os

cientistas o manuseiam e o dissecam: medem sua massa,

sua densidade, seu volume, sua temperatura: analisam

seu movimento; transformam-no. Mas o corpo dos

anatomistas ou dos fisiologistas é radicalmente diferente

do corpo do prazer e da dor.

Estamos em nosso corpo e não podemos deixá-lo.

Essa presença constante conosco mesmos dá base a

uma das interrogações fundamentais dos ideólogos. O

sujeito- o eu existe- existe somente encarnado: nenhuma

distância pode se constituir entre nós e nosso corpo.

Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no- ou

pelo- sono, fadiga, na possessão, no êxtase, na morte.

Ele será futuramente um cadáver. Por tudo isso, a

tradição filosófica antiga o entende como prisão da alma,

como um túmulo. Falar da história do corpo equivale

a olhar tudo o que cerca o indivíduo e o contextualiza.

Estamos, definitivamente, diante de um tema de infinita

proporções. Na história do corpo revela-se o universo

cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da

sociedade. A história do corpo é a história da própria vida

humana.

História do Corpo.

Direção Alain Corbin, Jean – Jacques Courtine, Georges

Vigarello.

Editora Vozes, 2009.